A. W. Pink
Capítulo 4
Aplicações práticas do assunto
O assunto que acabamos de estudar nos conduz a várias conclusões:
1ª) Aprendemos a maneira como será feita a defesa e justificação tanto do caráter quanto
do trono de Deus.
Que tipo de julgamento poderia ser considerado severo demais para aqueles que
não fizeram caso de um Ser tão poderoso como o Altíssimo? Se alguém culpado de traição
contra um governante terreno merece perder a vida, que tipo de castigo poderia ser
suficientemente grande para aquele que preferiu seus próprios prazeres em lugar da
vontade e da glória de um Deus infinitamente bom? O desprezo para com alguém
infinitamente superior merece sofrimento infinito. Deus ordenou ao pecador que se
arrependa; Ele o convidou por meio de ofertas cheias de graça; Ele supriu generosamente
cada uma de suas necessidades; e Ele lhe apresentou o Filho do Seu amor — Seu tesouro
escolhido — e contudo os homens persistem em seu caminho perverso. O pecador não
terá nenhum fundamento, então, para apelar contra a sentença do Juiz de toda a terra,
uma vez que Ele não apenas lhe ofereceu misericórdia, mas também lidou com ele com
muita paciência, quando poderia, com justiça, tê-lo eliminado quando pecou pela
primeira vez e poderia tê-lo lançado no inferno na primeira vez que recusou a graça que
lhe estava sendo oferecida.
O fato de Deus ser soberano exige que castigue qualquer pessoa que se rebele
contra Ele. É simplesmente apropriado que Ele deixe bem clara a Sua supremacia como
governador do universo. A criatura se atreveu a declarar a própria independência: o
assunto resultou em amotinação contra o Rei, e é por essa razão que se torna necessária a
defesa e a justificação do trono de Deus — “Agora sei que o SENHOR é maior que todos
os deuses; porque na coisa em que se ensoberbeceram, os sobrepujou” (Êx 18.11 — RC).
Quando Faraó se atreveu a fazer frente contra Jeová, Deus manifestou a Sua autoridade,
destruindo-o no mar Vermelho. A um outro rei, Ele o transformou num animal do
campo, a fim de fazê-lo saber que é o Altíssimo quem reina sobre o reino dos homens.5
Dessa forma, quando se encerrar a história deste mundo, Deus fará uma plena e final
manifestação da Sua soberana majestade. Embora Ele hoje suporte (não ‘ame’) com muita
longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, isso ocorre a fim de que,
naquele Dia, Ele possa “mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder” (Rm 9.22).
5 Daniel 4.28-37.
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2ª) Aquilo que estudamos serve para revelar a tolice e a loucura da maior parte da
humanidade, que, por causa de gratificações momentâneas, corre sério risco de ter de
aguentar todos esses tormentos eternos.
Eles preferem um pequeno prazer, ou uma pequena fortuna, ou uma pequena
honra terrena e fama (que dura apenas “por um pouco”) em lugar de uma salvação do lago
de fogo. Se é verdade que os tormentos do inferno são eternos, de que adiantará ao
homem se ele ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma? Quem são os loucos que
ouvem e leem essas coisas e dizem crer nelas, que estão vivos por um pouco de tempo,
alguns poucos e curtos anos no máximo, e contudo são displicentes a respeito daquilo que
lhes diz respeito no mundo vindouro, onde não haverá nem mudança nem fim! Quão
loucos se mostram quando ouvem que, se insistirem no pecado, serão eternamente
desgraçados, e contudo não se movem, mas escutam isso com tanta indiferença como se
isso absolutamente não lhes dissesse respeito! E contudo eles não sabem que talvez se
encontrem nessas chamas de tormento antes do final da próxima semana!
Como é triste notar que essa indiferença domina a grande maioria dos nossos
companheiros. A idade faz pouca diferença. Os jovens estão ocupados com seus prazeres;
os de meia-idade, com seu progresso neste mundo; os de idade, com as coisas que já
realizaram ou deixaram de realizar. No caso dos primeiros, é a concupiscência da carne;
com os segundos, a concupiscência dos olhos; com os terceiros, é a soberba da vida que
afugenta da mente deles todo e qualquer pensamento sério sobre a vida por vir. “… o
coração dos homens está cheio de maldade, nele há desvarios enquanto vivem; depois,
rumo aos mortos” (Ec 9.3). Oh, o poder ofuscante do pecado! Oh, a aparência enganosa
das riquezas! Oh, a perversidade do coração humano! Não há nada que revele tanto essas
coisas como a visão de homens e mulheres satisfeitos consigo mesmos, tranquilos e
sossegados, enquanto estão suspensos sobre as chamas eternas, seguros apenas pelo frágil
fio da mortalidade, o qual pode romper-se a qualquer momento.
3ª) Aquilo que aprendemos sobre o castigo eterno deveria fazer tremer todo leitor ainda
não salvo, à medida que lê estas páginas.
Essas coisas não são meras abstrações, mas são temíveis realidades, como
incontáveis milhares de pessoas já descobriram ao amargo preço da sua própria vida.
Talvez elas não pareçam reais para você neste momento, mas em pouco tempo — se você
continuar a rejeitar o Cristo de Deus — elas serão a sua própria sina. Você, também,
levantará os olhos no inferno, e verá os santos no céu. Você, também, suplicará uma gota
de água para aliviar sua terrível agonia, mas será tudo em vão. Você, também, implorará
por misericórdia, mas então já será tarde demais. Oh, leitor ainda não salvo, suplicamos
que você não despreze estas coisas nem as remova dos seus pensamentos. Foi assim que
milhares antes de você agiram, e a própria lembrança da sua estupidez agora intensifica os
seus tormentos. É muito melhor você tornar-se desprezível agora por um tempo, do que
chorar e gemer e ranger os dentes por toda a eternidade. É muito melhor perturbar a sua
atual paz falsa do que nunca provar a verdadeira paz por toda a eternidade.
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O Senhor Jesus afirma: “se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente
perecereis”6. Quem quer que seja você, jovem ou velho, rico ou pobre, religioso ou ateu,
se nunca se reconciliou com Deus, então é isso que o aguarda ao final da sua vida. Esse,
esse é o inferno sobre o qual você está agora suspenso, e no qual você está prestes a ser
lançado neste exato momento. É inútil enganar-se com esperanças de que você talvez
consiga escapar dele, ou dizer em seu próprio coração “Talvez não seja assim; talvez essas
coisas tenham sido apresentadas piores do que realmente são”. Essas coisas estão de
acordo com a Palavra da Verdade, e se você não se deixar convencer por esta Palavra
quando apresentada por homens em nome de Deus, então o próprio Deus Se
responsabilizará por provar a você que essas coisas são assim mesmo.
Não pense que é estranho o fato de Deus tratar você tão severamente, ou que a ira
que você haverá de sofrer seja tão grande. Por maior que ela seja, ainda não será tão
grande quanto a misericórdia que você agora está desprezando. O amor de Deus, a Sua
maravilhosa graça ao enviar o Seu próprio Filho para morrer pelos pecadores, é em tudo
tão grande e maravilhosa como essa indizível ira. Você recusou aceitar a Cristo como o
Salvador da ira vindoura, você desprezou o amor de Deus que chegou até a morte, por
que então você não haveria de sofrer a ira na mesma intensidade da graça e do amor que
você rejeitou? Será que ainda parece incrível que Deus endureça de tal forma o Seu
coração contra um miserável pecador e derrame sobre ele com infinito poder a sua ira
sem misericórdia? Então pare e pergunte: “Não é igualmente incrível que eu endureça o
meu coração contra Ele, contra a graça infinita, contra o Filho do Seu amor?” Oh,
queridos amigos, encarem a pergunta do próprio Cristo: “Como escapareis da
condenação do inferno?” (Mt 23.33). Há somente uma forma de escapar, e essa é correr
para o Salvador7. Se você não quiser cair nas mãos do Deus vivo, então jogue-se nos
braços do Cristo que morreu — “Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no
caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que
nele se refugiam” (Sl 2.12).
4ª) As coisas que aprendemos deveriam levar toda pessoa que se diz cristã a um cuidadoso
auto-exame.
Pese com cuidado os assuntos tremendamente solenes que dizem respeito a se
você de fato passou da morte para a vida. Você não pode dar-se o luxo de permanecer
incerto quanto a isso. O que está em jogo é por demais importante. Lembre-se de que o
dano será contra você mesmo. Lembre-se de que você tem um coração enganoso.
Lembre-se de que o diabo é o grande enganador das almas. Lembre-se de que “Há
caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Pv
4.12). Lembre-se de que está escrito: “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor,
Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não
expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi
explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade”
(Mt 7.22,23).
6 Lucas 13.3.
7 Hebreus 6.18 — RA: “nós … já corremos para o refúgio”.
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Há muitos que, agora, vestem a capa de santos, parecem santos, e sua aparência —
tanto para si mesmos como para os seus vizinhos — é satisfatória. E contudo o que eles
têm é apenas pele de ovelha; no coração, são lobos. Mas nenhum disfarce consegue
enganar o Juiz de todas as coisas. Os olhos dEle são como labareda de fogo: eles
examinam o coração, e provam os sentimentos mais profundos dos homens. Portanto,
que cada um de nós tome muito cuidado para não ser enganado. Compare-se com a
Palavra de Deus, pois esta é a régua pela qual você será medido. Teste as suas obras, pois
é por elas que você será manifesto. Indague se você está de fato vivendo uma vida cristã;
se está ou não sobre você o temor de Deus; se você está ou não mortificando os seus
membros que estão sobre a terra; se você está ou não “renunciando à impiedade e às
concupiscências mundanas” e se você está vivendo “no presente século, sensata, justa e
piedosamente” 8, visto que é dessa forma que a “graça” ensina os santos a viverem.
Suplique sinceramente e frequentemente a Deus que Ele revele você a você mesmo, e lhe
mostre se você está construindo sobre a Rocha, ou sobre a areia. Faça sua a oração do
salmista: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus
pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Sl
139.23,24). No mundo vindouro, Deus vai sondá-lo, e tornar plenamente manifesto
aquilo que você é, tanto para você mesmo como para os outros. Que cada um de nós,
então, humildemente Lhe suplique que nos sonde agora. Temos tremenda e urgente
necessidade do auxílio de Deus nesse assunto, visto que nosso coração é enganoso “mais
do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto”9.
5ª) Aquilo que aprendemos sobre esse assunto deveria levar aqueles que de fato possuem
a inteira segurança da fé a louvar a Deus em alta voz.
A cada um de vocês, dizemos o seguinte: Deus lhes deu um maravilhoso motivo de
gratidão e ações de graça. Vocês, também, mereciam com justiça sofrer o pleno peso da
ira de um Deus que odeia e castiga o pecado. Não faz muito tempo, vocês amavam as
trevas mais do que a luz. Faz apenas pouco tempo que vocês voltavam um ouvido surdo
tanto para os mandamentos como para as súplicas de Deus. Faz apenas no máximo poucos
anos que vocês desprezavam e rejeitavam o Seu amado Filho. Que graça maravilhosa foi
essa, então, que arrebatou vocês como um tição do meio do fogo! Que amor admirável
foi esse que os livrou da ira vindoura! Que misericórdia inigualável foi essa que os mudou
de filhos do inferno (Mt 23.15) para filhos de Deus! Oh, como vocês deveriam louvar o
Pai pelo fato de ter Ele posto o Seu olhar amoroso sobre suas vidas. Como deveriam
louvar o Filho por ter morrido para salvá-los do lago de fogo. Como deveriam louvar o
bendito Espírito por tê-los vivificado para a novidade de vida. E como esse
reconhecimento deveria ser expresso agora numa vida que glorifique o Deus triúno. Com
quanta diligência deveriam procurar aprender o que é agradável à Sua vista. Com quanta
sinceridade deveriam buscar a Sua vontade. Quão rapidamente deveriam trilhar o
caminho dos Seus mandamentos. Que a sua vida corresponda aos louvores dos seus
lábios.
8 Tito 2.12.
9 Jeremias 17.9.
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6ª) O que aprendemos sobre esse assunto deveria incitar todo o povo de Deus a um mais
profundo senso de dever.
Amado cristão, acaso você não tem obrigações para com os seus vizinhos nãocristãos?
Se Deus tornou claras para você essas solenes verdades, isso não intensifica a sua
responsabilidade para com os não-salvos? Se você não tem amor para com as almas, é de
temer que a sua própria alma esteja em iminente perigo. Se você consegue contemplar,
sem que isso o comova, homens e mulheres correndo pelo caminho largo que conduz à
destruição, então é de duvidar se você tem dentro de si o Espírito dAquele que chorou
sobre Jerusalém. É verdade que você não tem poder de si mesmo para salvar uma alma da
morte, mas você tem distribuído fielmente aquela Palavra que é o instrumento que Deus
usa para trazer almas da morte para a vida? Você está suplicando a Deus, como deveria
fazer, e dependendo dEle para abençoar os seus esforços para conduzir os perdidos ao
Cordeiro de Deus? Você é fervoroso como deveria ser em suas súplicas a Deus em favor
dos perdidos? Misericórdia! Será que você não tem juntar-se a este escritor, e curvar a
cabeça em sinal de vergonha? Não será isso uma boa razão para cada um de nós suplicar a
Deus que nos dê uma visão mais clara dessa porção indescritivelmente horrível que
aguarda todo aquele que rejeita a Cristo, e que nos capacite a agir no poder de uma tal
visão?!
7ª) O que acabamos de aprender com certeza será uma ocasião para o mais profundo
louvor a Deus.
Quaisquer que sejam as dificuldades que o castigo eterno dos perversos possa
representar a nós agora — e livremente admitimos que é difícil à nossa razão apreender o
assunto, e isso ocorre necessariamente porque somos incapazes de discernir a infinita
malignidade do pecado, e por isso somos incapazes de ver o verdadeiro castigo que ele de
fato merece — contudo, no Dia por vir isso será muito diferente. Quando
contemplarmos a justiça de Deus lidando com os Seus inimigos, quando ouvirmos as
sentenças sendo proferidas de acordo com as obras deles, quando virmos quão justamente
e inteiramente merecedores eles são da ira sem misericórdia, e virmos como eles são
lançados no lago de fogo, longe de recuar horrorizados, nossos corações darão vazão a
alegre louvor. Da mesma forma que no passado o fato de que os inimigos de Deus foram
lançados no Mar Vermelho motivou o Seu povo a explodir em cânticos de louvor, assim
no Dia por vir seremos motivados ao regozijo quando testemunharmos a demonstração
final da santidade e da justiça de Deus na destruição e no castigo de todos os que O
desprezaram. Lembre-se de que na destruição dos perversos Deus será glorificado e que
essa será a ocasião do regozijo do Seu povo. Deus não somente será “puro” quando julgar
(Sl 51.4), mas também os Seus atributos serão magnificados nas sentenças pronunciadas.
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