A. W. Pink
Capítulo 3
A espécie de castigo que aguarda os perdidos
1. A parte que cabe aos ímpios logo após a sua morte
Voltamo-nos, primeiro, ao ensino de nosso Senhor em Lucas 16. Aqui,
aprendemos as seguintes verdades: No Hades, os perdidos estão em plena posse das suas
faculdades e sensibilidades. Eles enxergam, já que o homem rico viu Abraão ao longe, e
Lázaro no seu seio (v. 23). Eles sentem, já que ele estava “em tormentos” (v. 24). Eles
suplicam misericórdia, visto que ele pediu — embora em vão — uma gota de água fria
para a sua língua (v. 24). Eles continuam em posse da memória, pois ao homem rico foi
pedido que “lembrasse” o que ele tinha recebido durante a sua vida na terra (v. 25). É
impossível que eles se encontrem com os redimidos, visto que há entre eles um “grande
abismo” (v. 26).
Indizivelmente solene é isso tudo. Os perdidos não somente serão atormentados
em chamas, mas a sua angústia será intensificada infinitamente pela visão dos redimidos
que estão sendo “consolados”. Aí então eles haverão de ver a alegre porção dos bemaventurados
que eles desprezaram, preferindo os prazeres transitórios do pecado. E
como, além disso, o fato de continuarem a possuir a capacidade de lembrar haverá de
intensificar os seus sofrimentos! Quão imensa será a tristeza com que recordarão as
oportunidades desperdiçadas, as censuras dos pais e amigos desdenhadas, os avisos dos
servos de Deus não levados em consideração, as proclamações do evangelho de Deus
menosprezadas. E então saber que não há como escapar, não há meio de alívio, não há
esperança de perdão! O seu destino será insuportável; não haverá como aguentar a sua
horrível sina. O Filho de Deus asseverou que “ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt
13.42). É muito significante que Cristo tenha Se referido a isso exatamente sete vezes —
denotando o completo sofrimento e angústia deles (Veja Mt 8.12; 13.42,50; 22.13;
24.51; 25.30; Lc 13.28).
2. O destino final dos ímpios
1. As Escrituras falam desse destino final como a “penalidade de eterna destruição,
banidos da face do Senhor” (2 Ts 1.9). Ninguém, a não ser aquele que de fato conhece a
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Deus, pode começar a avaliar o que significa ser eternamente banido da presença do
Senhor. Para sempre separado da Fonte de todo bem! Nunca jamais gozar a luz da face de
Deus! Nunca jamais regozijar-se com o calor da Sua presença. Isso, isso é o mais horrível
de tudo. O texto de 2 Tessalonicenses 1.9 deixa bem claro que o julgamento de Mateus
25, com a sua sentença eterna, nos dá uma visão do que acontece após o julgamento. A
“eterna destruição, banidos da face do Senhor” se equipara com “Apartai-vos de mim,
malditos”.
2. O destino final dos ímpios é chamado de “castigo eterno” (Mt 25.46). Em 1
João 4.18, a mesma palavra grega é traduzida como “tormento”. Esse termo comunica a
satisfação da justiça de Deus. Na punição dos ímpios, Deus demonstra a Sua majestade
ultrajada. Nisto o castigo se diferencia da correção ou disciplina. O castigo não se destina
a beneficiar aquele que o sofre. Ele se destina a impor a lei e a ordem; ele é necessário
para preservar o governo.
3. O destino final dos ímpios é chamado de “tormento”. Sabemos disso pelo fato
de que o fogo eterno onde serão lançados os ímpios é “preparado para o diabo e seus
anjos” (Mt 25.41), o que, mais do que esclarecer quem o haverá de suportar, especifica e
reforça a enormidade e o horror desse castigo. Esse versículo expõe a severidade do
castigo dos perdidos. Se o fogo eterno foi “preparado para o diabo e seus anjos”, quão
insuportável não será! Se o lugar do tormento eterno, no qual todos os descrentes serão
lançados, é o mesmo onde o arqui-inimigo de Deus haverá de sofrer, quão terrível não
deve ser esse lugar!
Através de Apocalipse 20.10, torna-se claro que esse fogo eterno, preparado para
o diabo e seus anjos, produzirá o mais terrível sofrimento. Ali somos informados que
Satanás será atormentado “de dia e de noite, pelos séculos dos séculos”. Não há dúvida de
que esse tormento será tanto interno como externo, mental e físico. A palavra ocorre a
primeira vez no Novo Testamento em Mateus 8.6: “Senhor, o meu criado jaz em casa, de
cama, paralítico, sofrendo horrivelmente”. A mesma palavra ocorre outra vez em
Apocalipse 9.5, onde lemos de gafanhotos infernais, vindos do poço do abismo, a quem
foi dado poder de atormentar os homens. Sua ação é descrita assim: “E o seu tormento
era como tormento de escorpião quando fere alguém”. O sofrimento que causarão será
tão intenso, que “os homens buscarão a morte e não a acharão; também terão ardente
desejo de morrer, mas a morte fugirá deles” (Ap 9.6). Esse tormento significa nada mais
nada menos do que a mais excruciante dor que somos capazes de conceber. Não temos
nem ideia de quanto o sofrimento do inferno haverá de exceder qualquer dor que se possa
sentir aqui na terra.
4. O destino final dos ímpios é descrito como sofrer “a pena do fogo eterno” (Jd 7
— RC). Mas há muitos que dizem ser essa uma expressão meramente figurativa.
Perguntamos: Como é que eles sabem disso? Onde é que Deus disse isso nas Escrituras?
Pessoalmente, cremos que quando Deus diz “fogo” Ele quer dizer “fogo”. Recusamo-nos a
embotar o fio da espada de Sua Palavra. Foi o dilúvio figurativo? Foram figurativos o “fogo
e enxofre” que desceram do céu e destruíram Sodoma e Gomorra? Foram figurativas as
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pragas que desceram sobre o Egito? Será figurativo o fogo que haverá de queimar esta
terra, fazendo com que os elementos se derretam abrasados? Não! Em cada um desses
casos somos obrigados a tomar as palavras das Escrituras em sua significação literal. Que
prestem contas a Deus aqueles que se atrevem a afirmar que o fogo do inferno não é
literal. Não somos juízes deles; mas recusamo-nos a aceitar a suavização que eles fazem
dessas palavras solenes. Para este escritor, o fogo literal não apresenta dificuldade
nenhuma. Os perdidos possuirão corpos literais quando forem lançados no inferno. Os
“anjos” também têm corpos; e, pelo que nos é dado supor, também o diabo possui um
corpo.
Mas muitas vezes se pergunta: Como é que o corpo dos perdidos pode ser
atormentado eternamente se o fogo é literal? Não seriam consumidos completamente
pelo fogo? Mesmo se não tivéssemos condições de responder a essas perguntas, ainda
creríamos que as Escrituras significam exatamente o que dizem. Mas somos gratos que a
Palavra de Deus responde a essa questão. Em Êxodo 3, lemos da sarça no deserto, que
ardia com fogo, e contudo não se consumia! Em Daniel 3, lemos dos três jovens hebreus
que foram lançados na fornalha ardente na Babilônia, e contudo não foram consumidos.
Como foi que isso aconteceu? De alguma forma, que desconhecemos, Deus preservou a
sarça e os corpos dos três jovens hebreus. Será Deus, então, incapaz de preservar os
corpos dos condenados de se consumirem? É evidente que não. Mas não somos nem
mesmo deixados meramente nessa inevitável inferência. Em Marcos 9.47-49, lemos o
seguinte: “é melhor entrares no reino de Deus com um só dos teus olhos do que, tendo os
dois, seres lançado no inferno, onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga.
Porque cada um será salgado com fogo”. A expressão “salgado com fogo” confirma o que
dissemos acima. O sal é um conservante; por conseguinte, quando somos informados que
“cada um” que é lançado na Geena será “salgado com fogo”, aprendemos que o próprio
fogo, longe de consumir haverá de preservar. Se alguém perguntar: Como pode ser isto?
Responderemos: Porque esse fogo foi “preparado” por Deus (Mt 25.41).
5. O destino final dos ímpios é descrito como uma associação com os mais
detestáveis dos perversos. “Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos
abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os
mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a
segunda morte” (Ap 21.8). Ah, prezado leitor, avalie bem essa linguagem solene. Você
pode ser alguém de cultura e de modos refinados. Avaliada por padrões morais, sua vida
talvez seja exemplar e sem defeito; talvez você se orgulhe de sua honestidade e
autenticidade; você talvez seja muito detalhista na escolha de amigos e muito cuidadoso ao
evitar a companhia dos profanos e pessoas de maus costumes; talvez você seja até mesmo
religioso, e contemple com desprezo e compaixão os idólatras deste mundo. Mas Deus
diz que, se você morrer na incredulidade, a sua porção será com os “abomináveis, os
assassinos, os impuros, os feiticeiros, os idólatras e com todos os mentirosos”. Pense no
que significa passar a eternidade na penitenciária do universo em companhia de Caim, e
Faraó, e Judas! Pense no que significará ser trancafiado com os vis sodomitas! Pense no
que significa ser encarcerado para sempre com todos os blasfemadores que já viveram
neste mundo!
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6. A porção final dos ímpios é descrita como “a negridão das trevas, para sempre”
(Jd 13). Os seus terríveis sofrimentos nunca jamais serão aliviados; os seus tormentos
serão intermináveis. Não há meio de escapar. Não há possibilidade de aliviar a sentença.
Não haverá ninguém capaz de auxiliá-los e interceder por eles diante de Deus. Eles
receberam muitas vezes a oferta de um Mediador neste mundo; mas nenhuma oferta
dessas lhes será feita no lago de fogo. “Para os perversos, diz o meu Deus, não há paz”.4
Não haverá lugar de descanso no inferno; nenhum refúgio onde possam encontrar um
pouco de trégua; nenhuma fonte refrescante onde possam refrescar-se. Não haverá nem
mudança nem variação no seu destino. Dia e noite, para todo o sempre, serão punidos.
Sem nenhuma esperança de melhora, afundarão em indescritível desespero.
7. A porção final dos ímpios estará além da capacidade de resistência do seres
humanos. “Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela
cair ficará reduzido a pó” (Mt 21.44). Há muitos que agora dizem: “Se no final eu me
encontrar no inferno, farei de tudo para suportá-lo da melhor forma possível”, como se
por meio de força de vontade e decisão mental pudessem, pelo menos em parte, animarse
e habilitar-se para a situação. Mas ai deles! As suas resoluções não valerão nada.
É comum que os homens, neste mundo, evitem calamidades, mas se por fim são
atingidos, fazem de tudo para conviver com elas. Fortificam-se em espírito e decidem
adequar-se às dificuldades da melhor forma possível. Reúnem toda a coragem e
resolução, determinados a não se entregar ao desespero. Mas será totalmente em vão que
os pecadores tentem fazer isso no lago de fogo. De que adianta a um verme que está
prestes a ser esmagado por uma grande rocha, juntar forças e esforçar-se para lidar contra
o peso dessa pedra, e tentar evitar ser esmagado por ela? Menos ainda uma pobre alma
condenada ao inferno será capaz de aguentar o peso da ira do Deus Altíssimo. Não
importa o quanto o pecador se fortaleça agora para suportar os sofrimentos do inferno, no
primeiro momento em que sentir as chamas, o seu coração haverá de derreter como cera
diante da fornalha – “Estarão fortes as tuas mãos, nos dias em que eu vier a tratar contigo?
Eu, o SENHOR, o disse e o farei” (Ez 22.14).
Se esse é o caso com os pecadores impenitentes, que eles não podem nem fugir do
seu castigo, nem livrar-se dele, nem suportá-lo, o que será deles então? Vou responder
com as palavras de outra pessoa:
“Eles sucumbirão completamente na morte eterna. Será um sucumbir do coração,
que não temos nem condições de imaginar. Temos uma ideia de como será ao repararmos
no corpo quando está em sofrimento extremo. A natureza do corpo aguenta por tempo
considerável sob dor muito forte, de forma a não entrar em colapso. Haverá grandes
esforços, ofegantes gemidos de lamento, e convulsões. Esses são os esforços da natureza
para ficar firme quando submetida a dor extrema. Aparentemente, existe na natureza
uma grande resistência contra capitular diante do sofrimento extremo; uma espécie de
incapacidade de entregar-se completamente ao caos total. Mas às vezes a dor física é tão
extrema e intensa, que a natureza do corpo não resiste; embora se recuse a capitular, ela
não pode lidar com a dor; nota-se algum esforço, alguns espasmos, e arquejos, pode
4 Isaías 57.21.
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haver um grito ou dois, e a natureza capitula sob a violência dos tormentos, sucumbe, e o
corpo morre. Essa é a morte do corpo. Dessa forma será com a alma no inferno; ela não
terá força nem poder para livrar-se a si mesma; e o seu tormento e horror serão tão
grandes, tão extraordinários, tão imensamente desproporcionais à sua força que, sem ter
condições de pelo menos aguentar, ainda que seja infinitamente contrário à natureza e à
inclinação da alma de capitular completamente; contudo ela capitulará, ela vai capitular
total e completamente, sem permanecer nenhum resquício de conforto, ou força, ou
coragem, ou esperança. E embora ela não seja nunca aniquilada, a sua existência e
percepção não serão jamais canceladas: contudo essa será a profundeza infinita da
escuridão na qual ela haverá de afundar, esse será um estado de morte, de morte eterna.
“A natureza humana anseia a felicidade; é da natureza da alma desejar e buscar o
bem-estar; e quando se encontra em situação adversa, ela também suspira por alívio; e
quanto maior a adversidade, mais intensamente busca ajuda. Mas se lhe é negado todo
alívio, se toda força é subjugada, todo apoio se vai; então a alma sucumbe na escuridão da
morte. Nós conseguimos formar uma ideia muito tênue desse assunto; não conseguimos
conceber o que é esse sucumbir da alma numa situação dessas. Mas para ajudar o leitor a
formar uma ideia, imagine-se lançado numa fornalha acesa em alta temperatura, ou num
forno de olaria, onde tanto a dor quanto o calor fossem muito mais intensos do que
quando acidentalmente se toca uma brasa acesa. Imagine também que o seu corpo tenha
de ficar ali por quinze minutos, no meio do fogo, fogo por dentro e fogo por fora, como
se fosse uma brasa acesa, plenamente consciente da carne a queimar; qual não seria o
horror que você sentiria ao entrar numa tal fornalha! E quão longos não lhe pareceriam
esses quinze minutos! Se fosse cronometrá-los, como lhe pareceria lento o ponteiro do
cronômetro! E depois de aguentar por um minuto, quão desesperadora não seria a
lembrança de que ainda teria de suportar os outros catorze minutos.
“Mas qual seria o efeito sobre a sua alma, se você soubesse que teria de
permanecer ali sofrendo aquele tormento por um período inteiro de vinte e quatro horas!
E quão maior não seria o efeito, se você soubesse que teria de suportar o tormento por
um ano inteiro, e quão infinitamente maior se você soubesse que teria de suportá-lo por
mil anos! Oh, então, qual não seria o desespero se você lembrasse, se você soubesse que
teria de aguentar isso para todo o sempre! Que não haveria fim para o tormento! Que,
depois de milhões e milhões de eras, o seu tormento não estaria mais próximo de um fim
do que estava antes; e que você nunca, nunca teria alívio! Mas esta ilustração consegue
dar apenas uma ideia; o seu tormento no inferno será infinitamente maior. Dessa forma, o
coração de qualquer pobre criatura afundará em completo desespero naquele lugar! Quão
completamente inexprimível e inimaginável será o desamparo e o desespero da alma que
se encontrar nessa situação” (Jonathan Edwards).
Em resumo, essa é a porção que aguarda o perdido — a eterna separação da Fonte
de todo bem; o castigo eterno; o tormento da alma e do corpo; uma vida sem fim no lago
de fogo, junto com os mais detestáveis dos perversos; sem nenhum raio de esperança;
completamente oprimido e esmagado pela ira do Deus que pune o pecado. E é bom
lembrar na Palavra de Quem é que encontramos essas solenes afirmações! Elas são
encontradas na Palavra dAquele que é fiel, e por isso escreveu em linguagem clara e
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indiscutível, de forma que ninguém se engane. Essas afirmações são encontradas na
Palavra dAquele que não pode mentir, e por isso Ele não fez uso de linguagem exagerada.
Elas são encontradas na Palavra dAquele que diz o que pensa e pensa o que diz, e por isso
este escritor, por exemplo, não se atreve a fazer outra coisa senão recebê-las pelo seu
valor declarado.
Tradução
Helio Kirchheim
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