O Castigo Eterno

A. W. Pink

Capítulo 2
O destino dos perversos

É extremamente necessário que tratemos desse solene assunto com imparcialidade
e com equilíbrio emocional. Oremos a Deus — autor e leitor juntamente — para que
todo pré-julgamento e preconceito seja removido de nossas mentes. Faríamos mal se nos
sentássemos aos pés da Infinita Sabedoria determinados a nos agarrar ao que previamente
já tínhamos concluído. Não há nada que seja mais ofensivo a Deus do que ousar examinar
a Sua Palavra, professando um desejo de aprender o que Ele pensa, quando já com
antecedência resolvemos em proveito próprio aquilo que ela vai dizer. Alguém já disse
que deveríamos trazer nossas mentes às Escrituras como papéis em branco são trazidos às
impressoras, para que possam receber unicamente a impressão dos tipos. Que essa graça
nos seja concedida a todos nós, que possamos sempre apresentar nossas mentes ao ensino
do Espírito Santo, para que ali seja impresso apenas o que Deus designar. Que nosso
único desejo seja ouvir “O que diz o Senhor?”
1. A certeza do julgamento dos perversos
Está escrito: “aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois
disto, o juízo” (Hb 9.27). Este é um dos muitos versículos que refutam os erros dos
aniquilacionistas, os quais dizem que o julgamento do pecador é a própria morte. Mas
aqui morte e julgamento são claramente distintos. Um segue a outra.
Há numerosas passagens bíblicas que estabelecem o fato de que haverá um futuro
julgamento para os pecadores. Em Eclesiastes 11.9 lemos o seguinte: “Alegra-te, jovem,
na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade; anda pelos
caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos; sabe, porém, que de
todas estas coisas Deus te pedirá contas”. Além do mais, em Eclesiastes 12.14, somos
informados que “Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas,
quer sejam boas, quer sejam más”. O Novo Testamento dá testemunho da mesma
verdade: “porquanto [Deus] estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça,
por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos” (At 17.31). A descrição
do próprio julgamento está em Apocalipse 20.11-15.
Não há dúvida que esse julgamento com certeza vai acontecer — “o Senhor sabe
livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o Dia de Juízo” (2
O Castigo Eterno — A. W. Pink 17
Pe 2.9). O pecador não terá nenhuma possibilidade de evitá-lo. Ninguém vai escapar dele
— “Como escapareis da condenação do inferno?” (Mt 23.33). Qualquer resistência,
individual ou coletiva, será inútil — “O mau, é evidente, não ficará sem castigo” (Pv
11.21). Deus não deixará de vingar-Se dos Seus inimigos, nem mesmo que eles se unam
em confederação para tentar resistir a Ele.
2. A morte sela o destino dos pecadores
As Escrituras ensinam claramente que a oportunidade que o homem tem para a
salvação se limita ao período da vida aqui na terra. Se ele morre sem salvação, seu destino
está inexoravelmente traçado. Há dois textos bíblicos no Novo Testamento em que mais
se baseiam aqueles que afirmam que há, para os perdidos, esperança após a morte. Ambos
estão na Primeira Epístola de Pedro. Vamos examiná-los, então, brevemente.
“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos,
para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; no
qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram
rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se
preparava a arca” (3.18-20 — Versão da SBTB). Mas esses versículos não se referem de
forma alguma a pregação ouvida por aqueles que já tivessem passado desta vida. Esse
texto simplesmente nos relata que o Espírito de Deus pregou através de Noé, enquanto a
arca estava sendo construída, àqueles que eram desobedientes; e porque eles recusaram
atender a essa pregação, eles agora são “espíritos em prisão”. Não foi Cristo mesmo que
“pregou”, mas o Espírito Santo, como se vê claramente no início do verso 19 — “no qual
também” — o “no qual” aponta para trás para “o Espírito” no final do versículo 18. Que o
Espírito Santo mesmo Se dirigiu aos antediluvianos nós sabemos através de Gênesis 6.3:
“O meu Espírito não agirá para sempre no homem”. O Espírito agiu através da pregação
de Noé. Que Noé era um “pregador”, nós o aprendemos em 2 Pedro 2.5.
A segunda passagem bíblica se encontra em 1 Pedro 4.6: “para este fim, foi o
evangelho pregado também a mortos”. Mas esse texto não nos apresenta problema
nenhum. O Evangelho foi pregado; não diz que está sendo pregado, nem que será
pregado outra vez a eles! O fato de usarem esse tipo de passagem só nos mostra a fraqueza
de argumentos e a impossibilidade de provar a ideia que tentam sustentar.
Que a morte sela o destino dos perdidos, podemos provar de forma negativa
através do fato — conclusivo, por si mesmo — de que não temos uma só ocorrência
descrita em nenhum dos Testamentos, Antigo e Novo, de algum pecador sendo salvo
depois da morte. Não existe nem mesmo uma só passagem bíblica que acene com a
esperança de uma promessa de que isso aconteça no futuro. Mas há passagens bíblicas que
contêm ensino claramente oposto a isso. Vamos examinar alguns desses textos, agora.
Vejamos, primeiro, Provérbios 29.1: “O homem que muitas vezes repreendido
endurece a cerviz, de repente será destruído sem que haja remédio” (Versão da SBTB). A
verdade está tão explícita e inequívoca, que não precisa nem de explicação nem de
reforço de nossa parte. Uma vez que o pecador rebelde morre, isso haverá de ocorrer
“sem remédio”. Nada poderia ser mais claro: a morte sela o seu destino.
O Castigo Eterno — A. W. Pink 18
Além do mais, em Mateus 9.6, lemos o seguinte: “Ora, para que saibais que o
Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse, então, ao
paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa”. Por que o Senhor não disse
simplesmente “O Filho do Homem tem autoridade para perdoar pecados” e então parou?
Isso teria sido suficiente para replicar aos que O criticavam. Entendemos que a única
razão por que o Salvador fez questão de adicionar as palavras “sobre a terra” foi para nos
fazer entender o seguinte: depois que o pecador deixa “a terra”, o Filho do Homem
(Cristo em Seu caráter mediatório) não tem “autoridade” para perdoar pecados!
Uma ocorrência similar à que acabamos de considerar encontra-se em João 12.25:
“Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-laá
para a vida eterna”. Repare que o contraste de ideias estaria perfeito sem as palavras
restritivas “neste mundo” — “Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua
vida preservá-la-á para a vida eterna”. Tornamos a repetir que entendemos como a única
razão de Cristo adicionar essas palavras qualificativas “aquele que odeia a sua vida neste
mundo preservá-la-á para a vida eterna” o seguinte: mostrar que o destino fica
definitivamente determinado uma vez que deixamos este mundo.
No texto de 2 Coríntios 5.10, que se refere aos crentes, temos outro exemplo do
cuidadoso uso da linguagem qualificativa: “Porque importa que todos nós compareçamos
perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver
feito por meio do corpo”. Os santos terão de dar conta não meramente daquilo que
fizeram, mas haverão de receber de acordo com o que fizeram “por meio do corpo”. Não
entra em consideração o que fizeram no intervalo que vai do momento em que deixaram
o corpo até a ressurreição.
Em João 8.21, encontramos registrado o que Cristo disse aos Seus inimigos: “Vou
retirar-me, e vós me procurareis, mas perecereis no vosso pecado; para onde eu vou vós
não podeis ir”. Repare cuidadosamente a ordem das duas últimas partes da frase. Uma vez
que eles morressem nos seus pecados, seria impossível que fossem para o céu. A
solenidade da força desse versículo se torna mais evidente se o contrastarmos com João
13.36: “Perguntou-lhe Simão Pedro: Senhor, para onde vais? Respondeu Jesus: Para onde
vou, não me podes seguir agora; mais tarde, porém, me seguirás”. Repare na ausência da
palavra “agora” em João 8.21. A Pedro foi dito, como a um característico santo, “mais
tarde, porém, me seguirás (para o céu)”; mas para os ímpios Cristo declarou: “para onde
eu vou vós não podeis ir”!
3. O que aguarda o pecador na morte
Nesse assunto, obviamente nos voltamos ao ensino do Senhor, para obtermos luz,
porque Ele falou mais do que qualquer outra pessoa a respeito do futuro dos perversos. E
não o fazemos em vão, pois em Lucas 16 O encontramos removendo o véu que oculta de
nós aquilo que está além da morte. Ele nos conta de um homem rico que morreu “e foi
sepultado” (v. 22). Mas ele não cessou de existir. Longe disso; o Senhor continuou a
história, dizendo: “No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos”. Não há porque
duvidar que Cristo estava aqui descrevendo a real experiência desse homem rico após a
O Castigo Eterno — A. W. Pink 19
morte; afirmar de outra forma é tornar-se culpado da blasfêmia de acusar o Filho de Deus
de usar uma linguagem que Ele sabia que haveria de iludir incontáveis multidões daqueles
que no futuro leriam o registro das Suas palavras. Não há quem se aproxime desta
passagem bíblica sem preconceito mental que de alguma forma creia que ela trata de algo
além de uma clara e simples descrição daquilo que aconteceu ao perverso após a sua
morte. Somente aqueles que de antemão chegaram à conclusão que não existe tormento
para o descrente após a morte, que se aproximam desta passagem bíblica determinados a
explicar de forma diferente o sentido óbvio dela, que rejeitam aquilo que ela contém e
leem nela aquilo que ela não contém.
“No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos”. A palavra grega traduzida
aqui como inferno é “Hades” (como aparece na RC), que é um termo genérico para o
mundo invisível, para onde passam as almas de todos ao morrer. Não há dúvida que se
deve ao fato de que as almas dos santos bem como as dos pecadores são descritas como
entrando no Sheol, na morte, que levou os tradutores a verter o termo como “sepultura”
em vários casos. Mas o fato que tanto em hebraico como no grego existe uma palavra
inteiramente diferente usada para “sepultura” deveria ter impedido um erro desses. O
Espírito Santo, por toda parte, cuidadosamente preservou a distinção entre os dois
termos. Um exame atencioso de cada passagem no Velho e no Novo Testamentos onde
essas palavras ocorrem mostrará que há várias coisas que se dizem sobre a sepultura
(hebraico: “queber”; grego: “mnemeion”) que jamais poderia ser dito a respeito de
“Sheol” ou “Hades”; e muitas coisas são ditas desse último que jamais se podem relacionar
aos primeiros. Por exemplo: tanto a palavra hebraica como a palavra grega para
“sepultura” ocorrem no plural continuamente; com Sheol e Hades isso nunca acontece.
Com frequência, a palavra hebraica e a palavra grega para “sepultura” são usadas como
possessão de indivíduos — “minha sepultura” (Gn 50.5); “a sepultura de Abner” (2 Sm
3.32); “e o depositou no seu túmulo novo (de José), que fizera abrir na rocha” (Mt
27.60); “Os sepulcros dos justos” (Mt 23.29) etc. Em Gênesis 50.5, lemos: “no meu
sepulcro que abri para mim”. Quanto ao Sheol e ao Hades não se encontram referências
desse tipo. Já dissemos o suficiente para provar que nem Sheol nem Hades são a
sepultura. Podemos afirmar confiantemente, dessa forma, que nem Sheol nem Hades
jamais deveriam ser traduzidos como “sepultura” ou “a sepultura”.
Hades refere-se ao mesmo lugar que Sheol. A sua identificação é inequivocamente
estabelecida por meio da comparação entre o Salmo 16.10 com Atos 2.27: “Pois não
abandonarás a minha alma ao Cheol” (Sl 16.10 — BRA) é “Porque não deixarás a minha
alma no Hades” em Atos 2.27 (BRA). Mas é importante manter em mente que o Sheol ou
Hades tem dois compartimentos, reservados respectivamente para os salvos e para os
perdidos. E “entre” esses dois, nosso Senhor nos informa, existe “um grande abismo” (Lc
16.26). O compartimento que agora estamos considerando é o que recebe a alma dos
perversos. Cristo declara que nele existe uma “chama” que atormenta. Isso está em
perfeita harmonia com o ensino do Antigo Testamento com referência ao Sheol. Em
Deuteronômio 33.22, lemos o seguinte: “Porque um fogo está acendido na minha ira,
Arde até o mais profundo Sheol” (BRA). Também na parábola do trigo e do joio, nosso
Senhor disse o seguinte: “no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o
joio, atai-o em feixes para ser queimado” (Mt 13.30). A explicação disso se encontra nos
O Castigo Eterno — A. W. Pink 20
versículos 40-42 do mesmo capítulo: “Assim como o joio é colhido e queimado no fogo,
assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do Homem os seus anjos, e eles
colherão do seu Reino tudo o que causa escândalo e os que cometem iniquidade. E lançálos-
ão na fornalha de fogo; ali, haverá pranto e ranger de dentes” (RC). Como isso
acontece no final desta era e antes de começar o julgamento, a “fornalha de fogo” deve
referir-se ao Hades, e não ao lago de fogo.
Voltando, então, ao ensino de Lucas 16 sobre a experiência do perverso
imediatamente após a morte, lemos o seguinte: “E, no Hades, ergueu os olhos, estando
em tormentos” (RC). Temos aqui um ser que tem percepção, uma pessoa consciente,
num lugar definido, sofrendo ali de forma excruciante. Ele estava “em tormentos”. A sua
angústia era tão grande, que ele suplicou que alguém “molhe em água a ponta do dedo e
me refresque a língua” (v. 24). Mas esse alívio lhe foi negado. Foi-lhe pedido que
“lembrasse” como ele havia vivido — um adorador de Mamon. Somos assegurados de que
essa será a maldição de todo aquele que morrer em seus pecados.
4. A total falta de esperança dos perdidos
Até agora vimos que, primeiro, o julgamento dos perversos é certo; segundo, a
morte sela a maldição deles; terceiro, ao morrer, a alma dos incrédulos vai para o Hades,
para o compartimento do mundo invisível reservado para os perdidos, para ali ser
atormentada na chama de fogo. Ali eles permanecem até o julgamento, quando serão
ressuscitados e trazidos diante do grande trono branco para receber a sua sentença final.
Dedicamos, por isso, uma seção especial para demonstrar que, depois que os perversos
são retirados do Hades, mesmo então não há nenhuma esperança quanto à sua salvação.
A primeira referência bíblica a que apelamos como prova disso é João 5.28,29
(RC): “todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão
para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação”.
Esse é o solene anúncio do Filho de Deus. Pesemos bem as Suas palavras. Aqui Ele nos diz
de forma breve aquilo que aguarda a totalidade dos mortos. Eles estão divididos em duas
classes: aqueles que praticaram o bem, e aqueles que praticaram o mal. Para os primeiros,
haverá a “ressurreição da vida”; para os outros, a “ressurreição da condenação”. Para
aqueles que praticaram o mal não haverá ressurreição para um período de prova, e para
eles não haverá, depois, uma ressurreição para salvação; mas simplesmente e somente a
ressurreição da condenação. Isso remove o próprio fundamento em que alguém possa
querer construir a futura esperança para os perversos!
Em 1 Tessalonicenses 4.13, lemos o seguinte: “Não queremos, porém, irmãos,
que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os
demais, que não têm esperança”. Aqui o apóstolo traça um contraste entre o cristão que
sente pesar pela morte de crentes queridos, e o pagão que lamenta a perda dos seus
queridos. O cristão pode entristecer-se com a partida de um parente ou amigo salvo, mas
ele pode confortar-se com a bendita esperança que encontra nas Escrituras, a esperança
de serem reunidos na vinda do Senhor. Essa esperança não têm o pagão e o não-salvo na
cristandade, os quais lamentam a perda dos amigos não-salvos. Sim, eles “não têm
O Castigo Eterno — A. W. Pink 21
esperança”. Isso não se atenua de forma alguma pelo fato de que em Efésios 2.12,13 nós
lemos a respeito daqueles que estavam “sem esperança” e que no entanto “foram
aproximados pelo sangue de Cristo”. O texto de Efésios fala daqueles que estavam vivos
no mundo, e enquanto se está aqui existe sempre uma esperança de que possam ser
salvos; embora enquanto permanecem sem serem salvos eles estão “sem esperança”, isto
é, sem nenhuma esperança garantida pelas Escrituras. Mas a passagem de Tessalonicenses
fala daqueles que saíram deste mundo sem serem salvos, e para eles “não há esperança”.
Quaisquer que sejam as vãs esperanças que os perversos possam agora cultivar com
respeito ao futuro, a “expectação dos perversos perecerá” por completo (Provérbios
10.28)!
Uma outra referência que prova a situação sem esperança daqueles que rejeitaram
a verdade de Deus encontra-se em Hebreus 10.26-29: “Porque, se vivermos
deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da
verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de
juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo
depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto
mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho
de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito
da graça?” Para nosso presente propósito não precisamos parar para considerar de quem
essa passagem fala de modo específico. É suficiente saber que ela trata daqueles que
deliberadamente resistiram à luz. A respeito desses somos informados que “já não resta
sacrifício pelos pecados”. Se já não resta sacrifício pelos pecados, então eles mesmos têm
de sofrer a penalidade divina por eles. Essa mesma passagem nos informa o que é essa
penalidade; é “fogo vingador” que haverá de devorá-los. É um juízo “sem misericórdia”. É
um “castigo” mais severo do que aquele que sobreveio a quem não fez caso da lei de
Moisés.
“Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de
misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tiago 2.13). É verdade que o
apóstolo está escrevendo, aqui, a santos, mas neste verso que citamos há uma notável
mudança na linguagem dele, e aqui ele obviamente está falando dos não-salvos. No verso
anterior, ele havia dito “Vós” (RC), mas agora ele muda para “aquele”. Aquele que não
usou de misericórdia (para com seu semelhante) será julgado “sem misericórdia” por
Deus; e isso, a despeito do fato de que “a misericórdia triunfa sobre o juízo”. A última
cláusula aparece claramente com o propósito de injetar solenidade ao que se diz antes.
Juízo “sem misericórdia” é linguagem que nos lembra Isaías 27.11, onde lemos o seguinte:
“este povo não é povo de entendimento; por isso, aquele que o fez não se compadecerá
dele e aquele que o formou não lhe mostrará nenhum favor” (RC). Se esse juízo, então, é
“sem misericórdia”, ele fecha a porta a toda possibilidade de alguma suavização final, ou
mesmo uma modificação dessa terrível sentença! E como isso expõe a inconsistência da
esperança cultivada por muitos, qual seja, que no último grande Dia eles pensam em
lançar-se na misericórdia dAquele a quem agora desprezam e desafiam! Será vão clamar
misericórdia naquela ocasião. Desde a antiguidade Deus diz a Israel: “Pelo que também eu
O Castigo Eterno — A. W. Pink 22
os tratarei com furor; os meus olhos não pouparão, nem terei piedade. Ainda que me
gritem aos ouvidos em alta voz, nem assim os ouvirei”3. Assim será no juízo final.
Podemos considerar também uma outra referência bíblica associada a esse assunto:
“ondas bravias do mar, que espumam as suas próprias sujidades; estrelas errantes, para as
quais tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre” (Jd 13). Isso é terrivelmente
solene. Este versículo refere-se à futura porção daqueles que agora “transformam em
libertinagem a graça de nosso Deus” e “negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus
Cristo” (Jd 4). Para eles está reservada “a negridão das trevas, para sempre”. A infinita
noite da sua maldição jamais será abrandada por uma simples estrela de esperança. Dessa
forma procuramos demonstrar que a Palavra de Deus, por meio de uma variedade de
expressões, cada qual convincente e sem ambiguidade, revela a total falta de esperança
daqueles que participarem da “ressurreição da condenação”.
Queremos, agora, considerar:
5. A morada final dos perdidos
Essa morada final recebe pelo menos dois diferentes nomes no Novo Testamento:
“geena” e “lago de fogo”. Vamos agora examinar o ensino das Escrituras sobre o assunto.
Primeiro, “geena” é a forma grega da expressão hebraica “vale de Hinom”, que era
um profundo desfiladeiro ao oriente de Jerusalém. Esse vale de Hinom era a princípio
usado para ritos idólatras (2 Cr 28.3). Mais tarde, tornou-se um cemitério (Jr 7.31), ou
mais provavelmente um crematório. Mais tarde ainda tornou-se o lugar onde o lixo de
Jerusalém era jogado e queimado (conforme Josefo). Havia constante fogo, a fim de
consumir a sujeira e o entulho ali depositados.
Segundo, esse vale de Hinom prenunciava a grande lixeira do universo — o
inferno, exatamente como outros lugares e pessoas das Escrituras do Antigo Testamento
descreviam outros objetos mais vis — por exemplo, o “rei de Tiro” em Ezequiel 28. Da
mesma forma que aquilo que se diz desse rei tem em vista um outro mais sinistro do que
ele, assim aquilo que se diz do vale de Hinom simbolizava aquilo que é muito mais
horrível. Da mesma forma que não se pode restringir “o rei de Tiro” a um mero homem
do passado, também não podemos limitar a geena ao vale que existia outrora perto de
Jerusalém.
Terceiro, nosso Senhor usou o vale de Hinom como um símbolo do inferno, e
assinou com o selo da Sua autoridade o mais amplo e mais solene alcance da palavra.
Deve-se considerar com cuidado que, quando falava da geena, Ele nunca Se referia ao
mero vale literal perto de Jerusalém, mas empregava o termo para designar o lugar dos
tormentos eternos.
Quarto, geena, no sentido usado no Novo Testamento, refere-se a um lugar. “Se o
teu olho direito te serve de pedra de tropeço, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém
mais que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na geena”
(Mt 5.29 — BRA. Veja também Mt 18.9).
3 Ezequiel 8.18.
O Castigo Eterno — A. W. Pink 23
Quinto, o fogo da geena é eterno. “Se a tua mão te servir de pedra de tropeço,
corta-a; melhor é entrares na vida manco, do que, tendo duas mãos, ires para a geena,
para o fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga” (Mc
9.43,44 — BRA).
Sexto, geena é o lugar onde tanto a alma como o corpo são destruídos. “Não
temais aos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que
pode fazer perecer na geena tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28 — BRA). Essa
passagem é muito importante, porque mais do que qualquer outra ela nos capacita a
entender o real sentido desse termo. O fato de que tanto a “alma” como o corpo são ali
destruídos, é prova positiva de que nosso Senhor não estava Se referindo ao vale de
Hinom. Assim, também, o fato de que o “corpo” é destruído ali, faz com que seja certo
que “geena” não é outro nome para “Hades”. Ao considerar esse solene versículo,
deveríamos lembrar que “destruir” não significa aniquilar. Alguns levantam uma objeção
ao fato de que Cristo aqui não disse expressamente que Deus vai “destruir tanto alma
como corpo no inferno”, mas apenas disse “Temei Aquele que pode fazer isso”. Isso nos
permite uma simples e conclusiva resposta. É muito evidente aqui que Cristo não está
atribuindo a Deus um poder que ninguém pode negar, mas que Ele, apesar disso, jamais
haverá de exercer! Ele não estava simplesmente afirmando a onipotência de Deus, mas
expressando uma solene ameaça que também será executada. Que era isso que Ele
pretendia, fica sem sombra de dúvida estabelecido quando comparamos Mateus 10.28
com a passagem paralela de Lucas 12.5: “Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer:
temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a
esse deveis temer”. Essa ameaça nós sabemos que será cumprida.
Sétimo, geena é o mesmo que lago de fogo. Há quatro coisas que indicam isso, e,
juntas, constituem uma prova cumulativa e clara. Primeiro, o fato de que na geena Deus
“destroi” tanto alma como corpo (Mt 10.28). Isso mostra que os perversos que ali são
destruídos já receberam corpos ressuscitados. Segundo, o fato de que o fogo da geena é
eterno: ele é “inextinguível” (Mc 9.43). Em lugar nenhum se diz isso do fogo do Sheol ou
do Hades. Terceiro, em Isaías 30.33, aprendemos que “Tofete” (BRA) está preparado
para “o rei” — isto é “o rei” de Daniel 11.36, que é o Anticristo, “o assírio” de Isaías
30.31 (BRA). Ora, “Tofete” é outro nome para o vale de Hinom, como se pode ver por
uma referência a Jeremias 7.31,32. Em Apocalipse 19.20, somos informados que a Besta
(o Anticristo) juntamente com o Falso Profeta serão “lançados vivos dentro do lago de
fogo que arde com enxofre”. Dessa forma, pela comparação de Isaías 30.33 com
Apocalipse 19.20, aprendemos que a geena e o lago de fogo são uma mesma coisa.
Finalmente, repare a ausência de “geena” em Apocalipse 20.14: “A morte e o Hades
foram lançados no lago de fogo”, significando as pessoas a quem a morte e o Hades
dominaram — a “morte” dominando o corpo; o “Hades” reclamando a alma. Pelas
palavras finais do versículo — “Esta é a segunda morte” — fica claro que quando a “morte
e o Hades” são lançados dentro do lago de fogo isso se refere aos seus cativos, às suas
vítimas. Repare então que não somos informados que a “geena” foi lançada no lago de
fogo, porque a “geena” e o lago de fogo são o mesmo lugar.
O Castigo Eterno — A. W. Pink 24
Apresentaremos agora alguns comentários sobre o lago de fogo e enxofre. A
análise a seguir indica o ensino das Escrituras sobre o assunto.
Primeiro, é o lugar que receberá, definitivamente, a Besta e o Falso Profeta:
Apocalipse 19.20.
Segundo, é o lugar que receberá, definitivamente, o diabo: Apocalipse 20.10.
Terceiro, é o lugar que receberá, definitivamente, todos aqueles cujos nomes não
forem encontrados no Livro da Vida: Apocalipse 20.15 e 21.8.
Quarto, é um lugar de tormento: Apocalipse 20.10.
Quinto, é um lugar cujo tormento é incessante e jamais acabará, “dia e noite por
todos os séculos”: Apocalipse 20.10 e 14.11.
Sexto, o lago de fogo também é chamado de “a segunda morte”: Apocalipse 20.14,
21.8, etc.
Sétimo, ele “não tem poder” sobre o povo de Deus: Apocalipse 20.6 e 2.11.
No sexto item acima, informamos que o lago de fogo também é chamado de “a
segunda morte”. Há pelo menos três razões que se podem sugerir para explicar o porquê
disso. Primeira, esse nome declara que os tormentos sem fim do lago de fogo são a
penalidade e o salário do pecado. “O salário do pecado é a morte”. Segunda, o uso desse
nome chama a atenção ao fato de que todos que são lançados no lago de fogo estarão
eternamente separados de Deus. Da mesma forma que a primeira morte é a separação da
alma do corpo, assim a segunda morte será a eterna separação da alma de Deus — “Estes
sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu
poder” ( 2 Ts 1.9). Terceira, esse título enfatiza o horror do lago de fogo. Para o homem
comum, a morte é o maior de todos os seus medos. Ele naturalmente recua dela; a morte
é o que ele mais teme. Quando, então, o Espírito Santo denomina o lago de fogo como “a
segunda morte”, Ele está enfatizando o fato de que ele é um objeto de horror, do qual o
pecador deveria fugir.
6. A eternidade dos sofrimentos dos perdidos
A respeito desse ponto, a linguagem das Escrituras é extremamente explícita. Em
Mateus 25.41, lemos do “fogo eterno”. Em Mateus 25.46, lemos do “castigo eterno”. Em
Marcos 3.29, lemos do “eterno juízo”. E em 2 Tessalonicenses 1.9, lemos da “eterna
destruição”. Estamos cientes de que os inimigos da verdade de Deus têm tentado alterar
indevidamente essa palavra traduzida como “eterna”. Mas os esforços deles têm sido
inteiramente fúteis. É impossível traduzir essa palavra grega por outra, fato que se torna
evidente pelo seguinte: A palavra grega é “aionios”, e o seu significado e extensão foram
definidos de forma terminante pelo Espírito Santo em, no mínimo, duas passagens
bíblicas: “não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as
que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2 Co 4.18). Aqui se
estabelece um contraste entre as coisas “que se veem” e as coisas “que se não veem”; entre
as coisas “temporais” e as coisas “eternas”. Ora, é óbvio que, se as coisas “temporais”
durassem para sempre, não haveria antítese entre elas e as coisas “eternas”. Também é
O Castigo Eterno — A. W. Pink 25
óbvio que, se as coisas “eternas” fossem apenas “de longa duração”, então não poderiam
ser apropriadamente contrastadas com as coisas que são temporais. A diferença entre as
coisas temporais e as eternas neste versículo é tão grande como a diferença entre as coisas
“que se veem” e as coisas “que se não veem”.
O segundo exemplo, que tem as mesmas características de 2 Coríntios 4.18, é
igualmente conclusivo. Em Filemon 15, lemos o seguinte: “Pois acredito que ele veio a
ser afastado de ti temporariamente, a fim de que o recebas para sempre”. Aqui a palavra
grega traduzida como “para sempre” é aionios. O apóstolo suplica a Filemon que receba
Onésimo, que fugiu do seu senhor, e a quem Paulo agora envia de volta. Quando o
apóstolo diz “o recebas para sempre”, é evidente que o significado é que ele nunca mais
será banido, nunca mais será vendido, nunca mais será despedido. “Aionios”, aqui, é
contrastado com “temporariamente”, para mostrar que significa exatamente o oposto
dessa expressão.
‘Eterno’ (ou ‘para sempre’) é o único e invariável significado de aionios no Novo
Testamento. A mesma palavra, traduzida como “destruição eterna”, “castigo eterno”,
“fogo eterno” é traduzida como “vida eterna” em João 3.16; “salvação eterna” em Hebreus
5.9; “Sua eterna glória” em 1 Pedro 5.10. Não há necessidade de nenhum argumento para
provar que nessas passagens é impossível traduzir apropriadamente de outra forma as
palavras ‘para sempre’ e ‘eterno’. E assim também ocorre com as outras passagens
bíblicas. O “fogo eterno” coincide com a existência do “Deus eterno”. O “castigo eterno”
dos perdidos se estenderá por todo o tempo da “vida eterna” dos crentes. O “juízo eterno”
dos perversos não terá fim assim como não terá fim a “eterna salvação” dos remidos. A
“eterna destruição” dos descrentes se mostrará tão interminável como a “glória eterna” de
Deus. Negar o primeiro é negar o último. Afirmar a eternidade de Deus é comprovar a
perpetuidade do sofrimento dos Seus inimigos.
7. O caráter final do estado dos perdidos
A maldição daqueles que forem lançados no lago de fogo é irrevogável e definitiva.
Há muitos fatos que provam isso. O perdão dos pecados está limitado à vida nesta terra.
Uma vez que o pecador sai deste mundo, não resta mais “sacrifício pelos pecados”. O fato
de que a alma do ímpio, ao morrer, vai imediatamente para a “fornalha de fogo” (Mt
13.42), dá testemunho do caráter permanente do seu estado futuro. O fato de que, mais
tarde, a sua ressurreição é para “condenação” (Jo 5.29) exclui toda possibilidade de um
alívio de última hora. O fato de que ele é lançado de corpo e alma dentro do lago de fogo
prova que nessa hora ele recebe a sua porção final. O fato de que o lago de fogo é
denominado de “segunda morte” denota a completa desesperança da situação do
condenado. Da mesma forma que a primeira morte o separa para sempre deste mundo,
assim a segunda morte o separa para sempre de Deus.
Em Filipenses 3, o apóstolo Paulo fala dos inimigos da cruz de Cristo e, movido
pelo Espírito Santo, ele nos diz que o “destino deles é a perdição” (v. 19). Ele não poderia
ter usado linguagem mais forte e mais inequívoca. Além do “fim”, não existe mais nada. E
o fim dos inimigos da cruz de Cristo é “destruição”, e não salvação. A palavra grega
O Castigo Eterno — A. W. Pink 26
traduzida aqui como “fim” é “telos”. Nós a encontramos nas seguintes passagens: “o seu
reinado não terá fim” (Lc 1.33); “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele
que crê” (Rm 10.4); “não teve princípio de dias, nem fim de existência” (Hb 7.3); “Eu
sou … o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Ap 22.13).
Como acabamos de ver, o capítulo vinte de Apocalipse descreve o julgamento final
dos ímpios diante do grande trono branco, depois do quê eles são lançados para dentro do
lago de fogo. Os capítulos seguintes — os dois últimos da Bíblia — podem ser lidos com
cuidado e diligentemente examinados, mas não se encontrará ali nem sequer uma
indicação de que aqueles que foram lançados no lago de fogo em algum tempo futuro
haverão de sair dali. Em vez disso, encontramos no último capítulo da Palavra de Deus a
seguinte afirmação solene: “Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda
sendo imundo” (Ap 22.11). Dessa forma, o caráter final do seu estado é expressamente
declarado na página final das Escrituras Sagradas.
Nos dois últimos capítulos, consideramos alguns dos principais sofismas criados
pelos incrédulos contra a verdade do castigo eterno, e também examinamos o ensino das
Escrituras com respeito ao destino dos ímpios. Aproximamo-nos, agora, do mais solene
aspecto do nosso assunto, ou seja, A ESPÉCIE DE CASTIGO QUE AGUARDA OS PERDIDOS.

Tradução
Helio Kirchheim

Share this content:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *