A. W. Pink
Capitúlo 01
Objeções à doutrina do castigo eterno
Seria impossível, ao analisar as objeções que se fazem à verdade do castigo eterno,
considerar todos os argumentos inventados pela mente fértil da incredulidade influenciada
por Satanás. Consideraremos, todavia, os argumentos de maior peso, aqueles que têm
maior aceitação entre os incrédulos. Vamos classificá-los da seguinte forma: Em primeiro
lugar, deduções que se fazem dos atributos de Deus. Em segundo lugar, passagens bíblicas
a que recorrem os universalistas. Em terceiro lugar, textos bíblicos usados pelos
aniquilacionistas. Em quarto lugar, declarações de que o castigo não é penal e retributivo,
mas disciplinar e corretivo.
1. Deduções que se fazem dos atributos de Deus
a) Deus é amor. Dessa premissa bíblica conclui-se que Ele jamais haverá de lançar
nenhuma de Suas criaturas na desgraça eterna.
Mas temos de lembrar que a Bíblia também nos diz que “Deus é luz”, e que entre a
luz e as trevas não pode haver comunhão. O amor de Deus não é um sentimento
emocional que anula o discernimento moral. O amor de Deus é um amor santo, e pelo
fato de ser assim Ele odeia o mal; sim, está escrito: “aborreces a todos os que praticam a
iniquidade” (Sl 5.5). As Escrituras falam com muito mais frequência da cólera e da ira de
Deus do que do Seu amor e compaixão. Por mais assustador que isso possa soar, é,
contudo, um fato. Basta usar alguma concordância para constatá-lo por si mesmo.
Argumentar, então, que, pelo fato de Deus ser amor, Ele não infligirá tormento eterno
aos perversos, é desconhecer que Deus é luz, e difamar a Sua santidade.
b) Deus é misericordioso. Pode ser que o homem seja pecador, e que a santidade
exija que ele seja punido, mas argumenta-se que a misericórdia divina haverá de intervir,
e, mesmo que o castigo não seja revogado por completo, imagina-se que a sentença será
modificada e os termos do castigo sejam abreviados. Diz-se que o tormento eterno dos
perdidos não se harmoniza com um Deus de misericórdia.
Se por “misericórdia de Deus” queremos dizer que Ele é complacente demais para
repartir entre Suas criaturas o castigo devido, pela lógica devemos aplicar isso a todos os
demais atributos de Deus (já que são todos infinitos), e concluir que nenhuma de Suas
criaturas pode sofrer de forma alguma. Contudo, é evidente que isso não é verdade. Os
fato negam isso. As criaturas de Deus sofrem, muitas vezes de modo excruciante, até
mesmo nesta vida. Olhe o mundo de hoje, e repare na indizível miséria que abunda em
todos os lugares; lembre-se, então, que, por mais misterioso que seja para nós, isso tudo
é permitido por um Deus cheio de misericórdia. Depois, leia no Antigo Testamento os
juízos do dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra com fogo e enxofre do céu; as
pragas sobre o Egito; os juízos que se abateram sobre Israel; e então saiba que essas coisas
não foram impedidas pela misericórdia de Deus! Argumentar, então, que, porque Deus é
misericordioso Ele não haverá de lançar no lago de fogo cada um que não tiver o nome
escrito no Livro da Vida, é fazer-se de cego diante de todos os juízos de Deus do passado!
c) Deus é justo. Muitas vezes se diz que Deus seria injusto se sentenciasse à
perdição eterna qualquer de Suas criaturas faltosas.
Mas quem somos nós para julgar se é justo ou não o Deus que sabe todas as coisas?
Quem somos nós para dizer o que é consistente ou não com a justiça de Deus? Quem
somos nós para determinar o que haverá de justificar da melhor forma a benevolência ou a
retidão de Deus? O pecado debilitou de tal forma a nossa capacidade de julgar,
obscureceu nosso entendimento, entorpeceu nossa consciência, perverteu de tal forma
nossa vontade, corrompeu de tal forma nosso coração, que somos totalmente
incompetentes para julgar nesse assunto. Estamos de tal forma infectados pelo pecado e
fomos tão afetados por ele, que somos completamente incapazes de avaliar o que de fato
ele é e o castigo que esse pecado merece. Imagine um grupo de criminosos avaliando,
julgando a validade, a retidão e a pertinência da lei que os condenou! A verdade nisso
tudo é que Deus não será medido por padrões humanos — e quantas vezes se perde isso
de vista!
Mas será que nos demos conta de que negar a justiça do castigo eterno é também
repudiar a graça de Deus? Se a perdição eterna é injusta, então ser livre dessa perdição
tem de ser direito do pecador; e, se admitimos isso, a sua salvação não pode jamais ser
atribuída à graça, que é favor imerecido! Além disso, negar a justiça do castigo eterno é
deixar de levar em conta a consciência cristã, que testemunha universalmente que a
punição, e a punição somente, é tudo o que cada um de nós merece. Além disso, se o
pecador desprezou e rejeitou a felicidade eterna, existe alguma razão pela qual ele deveria
reclamar contra a justiça da miséria eterna? Finalmente, se existe uma maldade infinita no
pecado — como de fato existe — então o castigo infinito é a sua adequada recompensa.
d) Deus é santo. E, pelo fato de Deus ser infinitamente santo, Ele tem infinito ódio
pelo pecado. Dessa premissa bíblica alguns concluem erroneamente que, por essa razão,
Deus haverá de triunfar, no fim, sobre o mal por meio do banimento de todo e qualquer
vestígio dele do universo; de outra forma, dizem, fica comprometido o caráter moral de
Deus.
Mas replicamos a esse sofisma da seguinte forma: A santidade de Deus não evitou
que o pecado entrasse no Seu universo, e Ele permite que permaneça todos esses milhares
de anos, por isso um Deus santo coexiste e pode coexistir com um mundo de pecado!
Talvez alguém contra-argumente: Há várias e boas razões por que o pecado é permitido
agora. Exatamente, contestamos. E quem sabe quais são essas razões? Podemos até
conjecturar, mas quem sabe de fato? Deus não nos informa sobre isso na Sua Palavra.
Quem, então, está em posição de dizer que não haverá talvez razões eternas —
necessidades — para a contínua existência do pecado? É a mais certa verdade que Deus
vai triunfar sobre o mal. O Seu triunfo será manifesto pela prisão dos Seus inimigos num
lugar onde não mais causarão dano, e onde nos seus tormentos a Sua santa indignação
contra o pecado haverá de fulgir pelos séculos dos séculos. O lago de fogo será a coroa da
completa derrota de Satanás.
2. Passagens bíblicas a que recorrem os universalistas
Os universalistas se dividem, de modo geral, em duas classes: aqueles que ensinam
a salvação final de toda a raça humana, e aqueles que declaram a salvação final de todas as
criaturas, inclusive do diabo, dos anjos decaídos, e dos demônios. O tipo de passagens
bíblicas a que ambos apelam são versículos onde aparecem as palavras “todos”, “todos os
homens”, “todas as coisas”, “o mundo”. A maneira mais simples de refutar o ponto de
vista deles sobre essas passagens é mostrar que esses termos normalmente têm o sentido
restringido pelo seu contexto imediato.
A questão levantada pelos universalistas se reduz a saber se os termos “todos os
homens” e “todas as coisas” são usados, nas passagens que falam de salvação, num sentido
limitado ou ilimitado. Vamos considerar, então, algumas passagens onde ocorrem esses
termos, mas onde é impossível dar-lhes um sentido perfeito ou força absoluta:
“Saíam a ter com ele toda a província da Judéia e todos os habitantes de Jerusalém;
e, confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão” (Mc 1.5). “Estando
o povo na expectativa, e discorrendo todos no seu íntimo a respeito de João, se não seria
ele, porventura, o próprio Cristo” (Lc 3.15). “E foram ter com João e lhe disseram:
Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está
batizando, e todos lhe saem ao encontro” (Jo 3.26). “De madrugada, voltou novamente
para o templo, e todo o povo ia ter com ele; e, assentado, os ensinava” (Jo 8.2). “porque
terás de ser sua testemunha diante de todos os homens, das coisas que tens visto e ouvido”
(At 22.15). “Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos
os homens” (2 Co 3.2).
Em nenhuma das passagens acima os termos “todos”, “todos os homens”, “todo o
povo” têm extensão ilimitada. Em cada uma dessas passagens esses termos gerais possuem
somente sentido relativo. Nas Escrituras, o termo “todos” é usado de duas formas: pode
significar “todos sem exceção” (ocorre com pouca frequência), ou pode significar “todos
sem distinção” (esse é o significado mais comum), ou seja, de todas as classes e de todas as
espécies — velhos e jovens, homens e mulheres, ricos e pobres, instruídos e analfabetos,
e em muitas ocasiões judeus e gentios, homens de todas as nações. Muito frequentemente
o termo “todos” se refere a todos os crentes, todos que estão em Cristo.
O que acabamos de dizer a respeito do uso relativo e restrito dos termos “todos” e
“todos os homens” também se aplica inteiramente ao termo “todas as coisas”. Nas
Escrituras, essa é outra expressão que com frequência se usa com significado bastante
limitado. Apresentamos alguns exemplos: “Um crê que de tudo1 pode comer, mas o débil
come legumes” (Rm 14.2). “Não destruas a obra de Deus por causa da comida. Todas as
coisas, na verdade, são limpas” (Rm 14.20). “Fiz-me tudo para com todos, com o fim de,
por todos os modos, salvar alguns” (1 Co 9.22). “Todas as coisas são lícitas, mas nem
todas convêm” (1 Co 10.23). “de tudo vos informará Tíquico, o irmão amado e fiel
ministro do Senhor” (Ef 6.21). “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Fp 4.13
— RC). Em cada uma dessas passagens, as expressões “todas as coisas”, “tudo”, “todos”
têm significação restrita.
Outro grupo de passagens usadas pelos universalistas são versículos onde aparece a
expressão “o mundo”. Mas um exame cuidadoso de cada uma dessas passagens onde esse
termo ocorre no Novo Testamento haverá de mostrar que não somos forçados a entender
que se referem à raça humana inteira, porque em inúmeras ocasiões o seu sentido é bem
mais restrito. Considere os seguintes exemplos: “Porque o pão de Deus é o que desce do
céu e dá vida ao mundo” (Jo 6.33). Repare que aqui não é uma questão de oferecer “vida”
ao mundo, mas de dar “vida”. Será que Cristo “dá vida” — vida espiritual e eterna, uma
vez que é isso que está sendo considerado aqui — a todo e qualquer membro da família
humana? “Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo” (Jo 7.4). Aqui é evidente que “o
mundo” é expressão indefinida — apresente-Se em público, aos homens em geral, é o
sentido óbvio aqui. “De sorte que os fariseus disseram entre si: Vede que nada
aproveitais! Eis aí vai o mundo após ele” (Jo 12.19). Será que os fariseus queriam dizer
que a raça humana toda estava indo “após ele”? É claro que não. “Primeiramente, dou
graças a meu Deus, mediante Jesus Cristo, no tocante a todos vós, porque, em todo o
mundo, é proclamada a vossa fé” (Rm 1.8). Será que isso significa que a fé dos santos de
Roma era conhecida e comentada por toda a raça humana? Será que todos os homens em
todos os lugares falavam da fé deles? Será que todos sem exceção do império romano
conheciam esses irmãos? A “palavra da verdade do evangelho, que chegou até vós; como
também, em todo o mundo” (Cl 1.5,6). Será que a expressão “todo o mundo” aqui
significa toda a humanidade, sem exceção nem distinção? Será que todos os homens em
todos os lugares ouviram o Evangelho? É evidente que o significado desse versículo é que
o Evangelho, em vez de se manter confinado na Judéia e entre as ovelhas perdidas da casa
de Israel, espalhou-se sem restrições por muitos lugares. “e toda a terra se maravilhou,
seguindo a besta” (Ap 13.3). Sabemos, por meio de outras passagens bíblicas, que a
referência, aqui, não é a todos os homens sem exceção.
Por meio das passagens citadas acima, vemos, então, que não há nada que nos
obrigue a conceder significação ilimitada aos termos “todos os homens”, “todas as coisas”,
“todo o mundo”. Dessa forma, quando insistimos que “todo o mundo” é salvo, e que
“todos os homens” são remidos, são o ajuntamento de crentes e todos os homens que
recebem a Cristo como Salvador pessoal, em vez de interpretar as Escrituras para agradar
a nós mesmos, estamos expondo esses versículos em plena harmonia com as outras
passagens bíblicas. Por outro lado, dar a esses termos significação ilimitada e fazê-los
significar todos sem exceção é interpretá-los de forma incoerente com as muitas
passagens que claramente ensinam que há pessoas que no final vão se perder.
1 No grego, é o mesmo termo pav (pas) que aparece traduzido como “todas as coisas” em Rm 14.20.
Antes de prosseguir para nossa próxima subdivisão, uma última observação sobre o
universalismo. O simples fato de que o universalismo é tão popular entre os perversos é
prova irrefutável de que esse sistema não é ensinado na Bíblia. Lemos em 1 Coríntios
2.14: “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são
loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. O fato de
que o homem natural aceita o ensino de que todos no final serão salvos é um sinal seguro
de que isso não pertence às “coisas do Espírito de Deus”. Os ímpios detestam a luz, mas
amam as trevas; portanto, uma vez que consideram “loucura” a verdade de Deus e a
rejeitam, passam a considerar razoáveis as mentiras do diabo, e avidamente as engolem.
3. Textos bíblicos usados pelos . aniquilacionistas
A verdade é uma só, consistente, eternamente imutável. O erro, à semelhança da
Hidra2, tem muitas cabeças, é inconsistente e contraditório, sempre mudando de forma.
Os homens estão de tal forma determinados a convencer-se de que o castigo eterno dos
ímpios é um mito, que a inimizade da mente carnal inventou uma variedade de formas
para sair de debaixo do jugo dessa verdade que lhes parece tão odiosa. “Deus fez ao
homem reto, mas ele buscou muitas invenções” (Ec 7.29 — RC). Uma dessas invenções
é a teoria de que a morte do ímpio se transformará num eterno esquecimento, e que,
depois de ressurgir e serem julgados diante do grande trono branco, eles serão
aniquilados no lado de fogo. Por incrível que pareça, houve muitos e ainda há muitos que
advogam essa ideia e a ela se aferram; e o que é ainda mais inimaginável, usam a Palavra
de Deus para sustentar esse erro. Essa é a razão por que faremos uma breve menção desse
ensino aqui.
O primeiro tipo de textos bíblicos que eles usam são versículos onde aparece o
termo “morte”. Morte no mais absoluto sentido. Eles consideram a morte como a
passagem da existência para a não-existência; uma completa extinção do ser. A morte é
aplicada tanto à alma como ao corpo. Como descobrir, então, o erro disso tudo?
Respondemos: recorrendo à Palavra de Deus. O significado de uma palavra não se obtém
procurando sua etimologia nem observando a forma como foi usada por escritores
pagãos, nem por meio de um dicionário da língua em que está escrita a Bíblia, nem
mesmo de léxicos gregos, mas se encontra observando a forma em que é usada nas
Sagradas Escrituras. O que significa, então, o termo morte, da forma que o Espírito Santo
o usa?
Vejamos em primeiro lugar 1 Coríntios 15.36: “Insensato! O que tu semeias não é
vivificado, se primeiro não morrer”. Eis aqui a ilustração e o tipo que o Espírito Santo dá
da morte e ressurreição de um crente. Considere: será que o germe vivo daquilo que é
semeado se extingue antes de produzir fruto? É evidente que não. Sem dúvida, há uma
deterioração da casca exterior — e aí reside a analogia com a morte do homem — mas o
germe vivo dentro da casca não morre, caso contrário não seria possível uma colheita.
Morte, então, de acordo com essa ilustração do Espírito Santo, não é aniquilação. A
2 Serpente de sete cabeças, da Mitologia Grega, que renasciam quando decepadas, a não ser que fossem todas cortadas de um só golpe. Foi morta por Hércules.
mesma ilustração foi usada por nosso Senhor. Ele disse: “Na verdade, na verdade vos digo
que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito
fruto” (Jo 12.24). O caule e a espiga de grãos na época da colheita nada mais são que o
germe vivo plenamente desenvolvido. É assim com o homem. O corpo morre; a alma
continua viva. Repare como isso fica evidente, de forma inequívoca, nas palavras do
Senhor registradas em Mateus 10.28: “Não temais os que matam o corpo e não podem
matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o
corpo”. O homem é incapaz de matar a “alma”! Mas Deus pode — repare
cuidadosamente a distinção — “fazer perecer (não é ‘matar’) no inferno tanto a alma
como o corpo”. Como “perecer” é outra palavra usada de forma indevida, e erroneamente
definida pelos aniquilacionistas, temos de dispensar a ela algumas palavras de
esclarecimento.
As palavras “destruir”, “destruição”, “perecer” etc., conforme usadas nas
Escrituras, não significam nunca a cessação da existência. Em Mateus 10.7, uma das
principais palavras gregas para “destruído” é traduzida como “as ovelhas perdidas da casa
de Israel”. Esses israelitas não haviam deixado de existir, mas estavam afastados de Deus!
Em Marcos 2.22, traduz-se a mesma palavra como “perder” em conexão com “odres” de
couro, que o vinho novo arrebentou. Dessa forma também, a palavra “perecer” não
significa nunca aniquilação nas Escrituras. Em 2 Pedro 3.6, lemos: “veio a perecer o
mundo daquele tempo, afogado em água”. O “mundo” que pereceu, quer se refira à terra
pré-adâmica, ou ao mundo destruído pelo Dilúvio, não se reduziu a nada. Quando a
Escritura fala, então, dos ímpios perecendo e sendo destruídos, ela o faz com o objetivo
de expor o erro desses que afirmam possuir um evangelho para os que morrem sem
estarem salvos. Dessa forma, quando a Escritura ensina o fato que os ímpios “pereceram”,
ela exclui toda esperança de uma subsequente salvação. O texto de 1 Timóteo 5.6 nos
informa que existe uma morte em vida mesmo agora: “entretanto, a que se entrega aos
prazeres, mesmo viva, está morta” — e assim será na eternidade.
O absurdo e a falta de base bíblica do aniquilacionismo são fáceis de expor. Se por
ocasião da morte o pecador deixa de existir, por que ressuscitá-lo para depois aniquilá-lo
outra vez? A Escritura fala do “castigo” e do “tormento” do ímpio; mas qualquer um pode
ver que isso não é aniquilação! Se a aniquilação fosse tudo o que estivesse aguardando os
ímpios, eles nunca haveriam de saber que receberam a justa e devida “recompensa” das
suas iniquidades! A Escritura fala de graus de punição para os perdidos; mas a aniquilação
tornaria isso impossível; a aniquilação nivelaria todas as distinções e desconsideraria todos
os graus de culpa. Em Isaías 33.14, lemos o seguinte: “Quem dentre nós habitará com o
fogo devorador? Quem dentre nós habitará com chamas eternas?” Longe de serem
aniquilados, os pecadores habitarão com o fogo devorador! As Escrituras falam repetidas
vezes de “choro e ranger de dentes” daqueles que são lançados no inferno; e isso, de uma
vez por todas, acusa de mentirosos aqueles que declaram o aniquilamento do ser.
4. A teoria de que o castigo dos perversos é disciplinar e corretivo
Existem aqueles que admitem que os ímpios serão lançados no inferno, mas que
insistem que o castigo é corretivo e não retributivo. Inventou-se uma espécie de
purgatório protestante, cujo fogo serve para purificar em vez de punir. Uma ideia dessas
desonra grandemente a Deus. Alguns dos que sustentam essa ideia dizem querer honrar a
Cristo, mas na verdade O desonram absurdamente. Se os homens que morreram
rejeitando o Salvador depois haverão de ser salvos, se o fogo do inferno tem como
objetivo fazer aquilo que o sangue da cruz não pôde fazer, então por que foi necessário o
divino sacrifício — todos poderiam ser salvos pelos sofrimentos disciplinares do inferno,
e assim Deus poderia ter poupado o Seu Filho. Além do mais, se Deus Se compadece
tanto de Seus inimigos e não deseja senão um final feliz de infinita compaixão para aqueles
que desprezaram e rejeitaram Seu Filho, perguntamos: Por que, então, Ele toma
providências tão terríveis para com eles? Se eles não precisam de outra coisa senão de
disciplina amorosa, não poderia a sabedoria divina inventar alguma medida mais gentil do
que entregá-los ao “tormento” do lago de fogo pelos “séculos dos séculos”? Essa é uma
dificuldade insuperável no caminho dos que defendem a teoria que estamos refutando.
Mas uma vez que percebemos que o lago de fogo é o lugar do castigo, e não da disciplina,
e que é a ira de Deus e não o Seu amor que lança ali os réprobos, desaparece toda e
qualquer dificuldade sobre o assunto.
Por mais inconsistente que possa ser, há aqueles que argumentam que o fogo do
inferno deve a sua eficácia disciplinar ao sangue de Cristo. Esses inimigos da verdade
receberam uma boa resposta de Sir Robert Anderson: “Essa punição, … precisa ser a
penalidade devida aos seus pecados; de outra maneira seria injusto aplicá-la. Se, então, os
perdidos haverão de se salvar por fim, isso tem de acontecer ou porque eles cumpriram a
penalidade; ou por meio da redenção (ou seja, porque Cristo sofreu essa penalidade por
eles). Mas se os pecadores podem salvar-se por satisfazer a justiça divina cumprindo a
penalidade que o pecado merece, então Cristo não precisava ter morrido. Se, por outro
lado, os remidos pudessem ser condenados, embora destinados à vida eterna em Cristo,
para que eles mesmos sofressem a penalidade do pecado, seriam destruídos os
fundamentos da nossa fé. Não são — eu repito — as consequências normais e
disciplinares do pecado que se seguem ao julgamento, mas sim as consequências penais,
referentes ao castigo do pecado. Dessa forma, podemos entender como pode o pecador
escapar da maldição que lhe é destinada por meio do pagamento vicário do seu débito, ou
podemos (pelo menos em teoria) admitir que ele pode ser liberado pagando pessoalmente
“até o último centavo”. Mas levar o pecador a pagar o que deve, e depois libertá-lo
porque alguém pagou tudo antes que ele terminasse de fazê-lo por completo — isso é
totalmente incompatível tanto com a justiça como com a graça” (Human Destiny).
Além do mais, se for verdade que os condenados no lago de fogo continuam sendo
objeto da benevolência divina; que, como criaturas da Sua mão, o Senhor continua
velando por eles com a mais benigna consideração, e o fogo inextinguível nada mais é do
que uma vara na mão de um Pai sábio e amoroso, perguntamos: Como é que isso pode se
harmonizar com a maneira constante com que as Escrituras falam dos descrentes? Deus
não nos deixou sem saber como Ele haverá de julgar aqueles que aberta e
persistentemente O desafiaram. Repetidas vezes a Bíblia nos informa o solene fato que
Deus vê os perversos como estorvos, que Lhe causam repulsa. Eles são comparados a
“lixo”, e não a ouro (Sl 119.119); são “palha” sem valor (Mt 3.12); são “víboras” (Mt
12.34); são “vasos de desonra” e “vasos de ira” (Rm 9.21,22); eles serão postos debaixo
dos Seus pés (1 Co 15.27), são como “árvores em plena estação dos frutos, destes
desprovidas, duplamente mortas, desarraigadas” (Jd 12) e por essa razão não estão
preparadas senão para o fogo; como aqueles que serão vomitados da boca do Senhor (Ap
3.16), ou seja, como objetos de repugnância. Algumas dessas passagens descrevem os
réprobos judeus; outras, pecadores de entre os gentios; algumas referem-se àqueles que
viveram em dispensações passadas; outros pertencem à presente; algumas falam de
homens que se encontram deste lado do túmulo, outras falam daqueles que já passaram
para o outro lado. Um dos objetivos de chamar-lhes a atenção é mostrar como Deus julga
os Seus inimigos. O que se pode avaliar das passagens acima (e poderíamos com facilidade
citar muitas outras) não se harmoniza com a visão de que Deus os contempla com amor e
que nutre por eles somente os mais ternos afetos.
Podemos comentar uma outra classe de passagens bíblicas a esse respeito. “Porque
levantarei a minha mão aos céus e direi: Eu vivo para sempre. Se eu afiar a minha espada
reluzente e travar do juízo a minha mão, farei tornar a vingança sobre os meus adversários
e recompensarei os meus aborrecedores. Embriagarei as minhas setas de sangue, e a
minha espada comerá carne; do sangue dos mortos e dos prisioneiros, desde a cabeça,
haverá vinganças do inimigo” (Dt 32.40-42). Será que isso se enquadra na teoria de que
Deus nada tem além de compaixão para com aqueles que O desprezaram e O desafiaram?
“Mas, porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a minha mão, e não houve
quem desse atenção; antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha
repreensão; também eu me rirei na vossa perdição e zombarei, vindo o vosso temor,
vindo como assolação o vosso temor, e vindo a vossa perdição como tormenta,
sobrevindo-vos aperto e angústia. Então, a mim clamarão, mas eu não responderei; de
madrugada me buscarão, mas não me acharão” (Pv 1.24-28). Será essa a linguagem de
Alguém que continua com propósitos de misericórdia para com os Seus inimigos?
“Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém se achava comigo; e os pisei na
minha ira e os esmaguei no meu furor; e o seu sangue salpicou as minhas vestes, e
manchei toda a minha vestidura” (Is 63.3). Pese isso com cuidado, e então pergunte se um
tratamento assim se dá àqueles sobre quem o Senhor nutre nada além de compaixão.
Se alguém dissesse que todas essas passagens são do Antigo Testamento, bastaria
dizer que são, de fato. Mas quem está falando ali é o mesmo Deus que Se revela no Novo
Testamento. Mas considere também um versículo do Novo Testamento. O Cristo de
Deus dirá aos homens: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25.41).
Será possível imaginar que o Filho de Deus pronunciaria essa terrível maldição sobre
aqueles que foram designados meramente para um tempo de castigo disciplinar, após o
qual eles estarão para sempre com Ele em perfeita bem-aventurança?!
Temos procurado, dessa forma, mostrar que as várias objeções levantadas contra o
castigo eterno não se sustentam diante do teste das Escrituras Sagradas; e que, embora
muitas vezes apresentadas de forma plausível, e com a declarada intenção de justificar o
caráter de Deus, contudo na realidade essas objeções não são nada mais do que
argumentos da mente carnal, que é inimizade contra Deus.
Tradução
Helio Kirchheim
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