por
W. E. Best
Capítulo 3 – Depravação da Vontade
(Tiago 1:14,15)
Há um relato proverbial que o pecado é uma criança a quem ninguém quer
reivindicar. Nenhuma pessoa em seu estado de depravação quer admitir que a
criança é sua. Os homens estão ansiosos por cometerem pecados, porém estão
relutantes em admitir que eles conceberam ou o deram a luz.
O apóstolo Tiago traçou o pecado desde sua própria fonte até seu resultado
final (Tiago 1:13-15). A tentação para pecar não é de Deus, porém da própria
pessoa. Em toda sociedade, os homens começam muito cedo na vida o procurar
arremessar o fardo do pecado de si mesmos para outro. “Andam errados desde
que nasceram, proferindo mentiras” (Salmos 58:3).
Tiago apontou a origem do pecado do homem quando ele disse que todo
homem é tentado quando de sua própria concupiscência é atraído e seduzido.
O apóstolo não disse que o homem é atraído por Deus, pelas circunstâncias ou
por Satanás. A palavra tentação é usada de duas maneiras nas Escrituras: (1)
Significa prova quando é atribuída a Deus. Deus provou a fé de Abraão
(Gênesis 22:1-14). Por ser sobrenatural a fé de Abraão, ele foi capaz de suportar
a prova. (2) Esta indica um esforço pela solicitação ou outros meios para atrair a
uma pessoa para o pecado (Tiago 1:13-15). Essa tentação não é de Deus, porém
do próprio coração do homem.
O homem é tentado quando é atraído por sua própria concupiscência. Aqui
Tiago não somente estava se referindo à impureza sexual. Ele falava da
corrupção que possuem todas as faculdades respectivas da alma – o
entendimento, a afeição e a vontade.
Algumas pessoas têm se equivocado em tentar determinar as causas do pecado.
Os homens culpam ao próprio Deus pelo pecado. O decreto de Deus não é a
causa do pecado. A distinção apropriada deve ser feita entre o decreto de Deus
e a ação real que trouxe o pecado à existência. O decreto de Deus não tem
influência causal na ação pecaminosa, posto que um decreto não opera para
efetuar a coisa decretada. O propósito de Deus é uma coisa e Sua ação em trazer
à existência o que Ele tinha proposto é outra. O pecado entrou no mundo pela
queda de Adão e não pela mão criativa de Deus.
Toda coisa decretada acontecerá no tempo, porém a presciência de Deus de
uma ação não faz necessária a ação. O que quer que o homem faça, bem ou mal,
o faz com tanta disposição como se realmente sua vontade estivesse livre. A
presciência de uma ação não influi ativamente na ação em si. Deus permanece
onisciente, e Ele sabe todas as coisas que o homem fará. Não obstante, devemos
distinguir entre a presciência de Deus de uma coisa e a atividade da coisa préconhecida.
Os homens também têm culpado aos corpos celestiais pela maldade sobre a
terra. Porém as estrelas e os planetas não influenciam em nada sobre os homens
nem os impelem a fazer o mal. A astrologia é uma ciência falsa que professa
interpretar a influência dos corpos celestiais sobre os assuntos terrestres. A
assim chamada ciência da astrologia é um ataque direto a Deus. O
relacionamento entre estrelas e uma alma humana é impossível porque o
relacionamento entre objetos inanimados e animados é impossível. (O sol, a lua
e as estrelas influenciam as coisas que têm uma natureza comum com eles
mesmos.)
Os astrólogos nada sabem sobre a graça de Deus. A Bíblia os condena,
classificando-os como magos e encantadores (Daniel 1:20; 2:2,10,27; 4:7; 5:7,15).
Isaías os chamou de aqueles que observam as estrelas e que contam os meses
para prognosticar (Isaías 47:13), e rogou ao povo que livrassem a si mesmos
deles.
Nem são a providência, os tempos, as pessoas e as circunstâncias as causas do
pecado. Eles são somente as ocasiões para pecar. Estes são meios indiretos pelos
quais os homens acusam a Deus com seu próprio pecado. Um homem nega sua
responsabilidade para o pecado quando ele culpa algo ou alguém pelo seu
próprio pecado. Os Cristãos recusam atribuir seu pecado a Deus. Quando a
providência de Deus pôs a Bate-seba ante os olhos de Davi, Davi não acusou a
Deus com seu pecado de adultério. A providência de Deus pôs um barco à
disposição de Jonas, porém Jonas não acusou a Deus com seu pecado de
escapar no barco e de procurar evitar cumprir a comissão de Deus a ele. A
corrupção dos tempos só serve como uma ocasião para trazer à luz a
manifestação das vontades depravadas dos homens perdidos.
Nem é a constituição e o temperamento do corpo do homem uma causa do
pecado. A reação a certos produtos químicos no corpo de uma pessoa não a faz
pecar. O corpo foi feito para servir, não para ordenar. A causa da maldade se
encontra mais profundo do que é revelado no ato do próprio pecado. Muitas
irregularidades do corpo realmente vêm do coração, e não vice-versa:
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá
conhecer?” (Jeremias 17:9). Toda maldade procede do coração: “Mas o que sai
da boca procede do coração; e é isso o que contamina o homem. Porque do
coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição,
furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas as coisas que contaminam o
homem…” (Mateus 15:18-20). O cometer real dos atos de pecado não causam a
culpabilidade da pessoa por aqueles atos. Antes, a determinação da vontade do
homem o faz um alcoólico, um adúltero, um ladrão ou um mentiroso: “Tendo
os olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecar; engodando as almas
inconstantes, tendo um coração exercitado na ganância, filhos de maldição” (2
Pedro 2:14). Uma pessoa com olhos cheios de adultério é uma que é totalmente
presa e ocupada na mente, coração e vontade por contemplar com desejo. O
mesmo é verdadeiro com todo tipo de pecado.
Nem pode o homem justamente acusar a Satanás por seu pecado. Satanás é o
tentador, e ele é reconhecido como responsável pela tentação, porém aqueles
que cedem à sua tentação não têm escusa. Um homem pode planejar um roubo
e encarregar outro homem para realizar os seus planos, mas o segundo homem
não é livre da culpa. Ele também é responsável pelo crime. Do mesmo modo, os
indivíduos que cedem às tentações de Satanás são responsáveis por seu
consentimento.
Qual, então, é a causa do pecado? Ela se encontra na vontade depravada do
homem. Tiago Armínio (Jacobus Arminius) declarou que todos os homens não
regenerados, por seu livre-arbítrio, têm o poder para resistir ao Espírito Santo,
rejeitar a graça oferecida de Deus, condenar o conselho de Deus concernente a
si mesmos, rejeitar o evangelho da graça e recusar abrir seus corações para Ele,
que bate. Isto é heresia. Um Arminiano mais recente, seguindo o ensino de
Armínio, corretamente afirmou que o homem é totalmente incapaz de salvar a
si mesmo, porém hereticamente declarou que o homem é capaz de exercitar
suas faculdades de raciocínio, de liberdade da vontade e de escolha.
O Arminiano grita, “Livre-arbítrio” como se somente a vontade tivesse
escapado da queda – como se o pecado de Adão não houvesse afetado aquela
faculdade nobre, virgem. Quando um Arminiano conversador e um liberal
discutem o tema do livre-arbítrio do homem, o Arminiano afirmará que o
homem tem um livre-arbítrio, e o liberal declarará que ele tem uma centelha
divina. Contudo, livre-arbítrio e centelha divina não diferem essencialmente. Os
dois pontos de vista são errôneos.
O homem é depravado – escravizado ao pecado. Se o homem tem um livrearbítrio
para escolher o bem ou o mal, porque universalmente os homens
escolhem o mal? A razão é que sua depravação alcança até mesmo as suas
vontades: “mas não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40).Os homens
amam as trevas porque suas obras são más. Eles aborrecem a luz e a ela não
vêm porque não querem que suas obras sejam expostas (João 3:19-21).
De acordo com os Arminianos, o pecador possui o livre-arbítrio somente
enquanto ele é um pecador. Quando alguém chega a ser um filho de Deus, ele
se sujeita à vontade de Deus. Os Arminianos dizem que todos os homens
podem crer, porém a Bíblia ensina que eles não podem crer a menos que sejam
ovelhas de Cristo (João 10:25-27). Os Arminianos afirmam que todos os homens
podem vir a Cristo, porém a Bíblia ensina “ninguém pode vir a mim, se o Pai
que me enviou não o trouxer…” (João 6:44).
Os Arminianos fazem o maior subordinado ao menor, porém a Bíblia prova que
Deus é maior que os homens. Portanto, não há compatibilidade entre as
filosofias daqueles que crêem no livre-arbítrio e daqueles que crêem na livre
graça. Todos que receberam a graça do soberano Deus seguem o ensino da
Palavra de Deus sobre a livre graça.
O homem depravado é seduzido e enganado voluntariamente, atraído por sua
própria concupiscência. Ele é molestado pela sua própria concupiscência: “…a
corrupção que já no mundo através da concupiscência” (2 Pedro 1:4). O mundo
é somente o objeto, não a causa de seu pecado. A concupiscência significa o
desejo para e a inclinação para as coisas ilícitas. O desejo para os prazeres
ilícitos é o vicio da sensualidade. O desejo para as riquezas ilícitas é o
fundamento para a fraude. O pecado da ambição faz com que alguém use
métodos corruptos. O desejo por uma religião sem Cristo é o fundamento da
idolatria e da superstição.
Satanás sabe que a sugestão é impotente sem a concupiscência. A chama é do
diabo, porém a madeira para o incêndio está no ser do homem. O homem tem o
poder para desejar e fazer coisas naturais (mundanas), porém ele não tem o
poder para fazer as coisas espirituais. Como uma meretriz, a concupiscência
atrai sua vítima em seu abraço e então concebe, ou engravida. Todo homem é
atraído por sua própria concupiscência e seduzido. Quando sua concupiscência
concebe, dá a luz ao pecado. Quando o pecado é consumado, dá a luz à morte.
A concepção é produzida pela união da concupiscência e a vontade. A sugestão
passa para o propósito. O desejo passa para a determinação.
O homem depravado é pior do que um boneco ou um robô. Um boneco é
guiado pela habilidosa mão do marionetista, porém o homem não salvo é
guiado pela depravação de sua própria vontade escravizada. O homem é um
agente livre, pois ele não é forçado exteriormente; mas ele não tem o livrearbítrio
porque ele está atado por dentro. A faculdade da vontade foi afetada na
queda. Ele é capaz de raciocinar e entender as coisas naturais, porém não é
capaz de entender as coisas espirituais: “Ora, o homem natural não aceita as
coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las,
porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14).
O homem não pode determinar sua vontade para o bem; somente a graça de
Deus pode determinar essa direção da vontade do homem. Uma vontade
enferma não pode prover uma cura espiritual – a cura deve vir de fora do
homem. Semelhança produz semelhança; portanto, uma vontade depravada
produz uma vontade depravada.
Os advogados do livre-arbítrio crêem que a menos que o homem esteja
completamente livre, Deus lhe manda fazer o que ele não pode. O pecado do
homem deve ser considerado neste ponto. Deus não é a causa do pecado do
homem; nem é a causa da condição caída do homem.
Todos nós estaríamos de acordo que uma pessoa tem o direito de demandar o
pagamento de um ladrão pelas coisas roubadas de seu lar – ainda que o ladrão
possa ou não pagar. Do mesmo modo, Deus tem o direito de demandar a
retidão do homem que é incapaz de fazê-lo por causa de seu próprio pecado.
Deus ordenou ao homem que tinha uma mão seca que a estendesse (Lucas 6:6-
10). Embora Lázaro estivesse na sepultura há quatro dias e fedendo, o Senhor
disse-lhe para sair para fora (João 11). Embora o homem seja impotente, ele é,
todavia responsável. Ele é incapaz de arrepender e crer aparte da graça, mas
Deus lhe ordena que faça ambos (Atos 17:30; 20:21), Quando ainda éramos
fracos, Cristo morreu pelos ímpios (Romanos 5:6). O plano inteiro da graça é
construído sobre o fato de que, embora todos os homens sejam incapazes, eles
são responsáveis, e que Jesus Cristo morreu pelos Seus dentre eles.
A liberdade da coerção é uma coisa, porém a liberdade de dentro é outra. O
homem caído está desprovido de poder espiritual, e a morte espiritual está
escrita sobre toda pessoa. Como Nicodemus, o homem está preso ao novo
nascimento (João 3:1-18); e como o leproso, ele está preso à vontade de Deus. A
Bíblia sustenta a responsabilidade do homem, mas também tira do homem
caído o poder espiritual. Toda jactância é excluída, e toda glória é concedida ao
soberano Deus (Romanos 3:26-28).
O homem em seu estado natural é incapaz de estar disposto ou não disposto
para ser capaz de vir a Cristo. Sua vontade é totalmente depravada, que é o
resultado de sua condição caída. Deve estar claro o fato que a capacidade
natural e a incapacidade espiritual diferem. A capacidade natural de uma
pessoa lhe capacita a estar presente no lugar onde a Palavra de Deus é
proclamada. A capacidade natural de Lídia lhe deu poder para ir ao lugar onde
ouviu Paulo expondo a palavra de Deus. Contudo, foi um ato do soberano Deus
que abriu seu coração para entender a proclamação por Paulo (Atos 16:13,14). A
capacidade natural de um indivíduo lhe faz responsável por seu pecado, porém
sua depravação lhe faz espiritualmente incapaz de vir a Cristo. A depravação
da vontade se deve ao pecado, e o pecado é a causa da concupiscência do
homem. Não há esperança para ninguém aparte da graça de Deus.
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