Livre Graça VERSUS Livre-Arbítrio

por
W. E. Best
Capítulo 1 – Liberdade da Vontade
(Efésios 1:11)

A idéia Bíblica de liberdade da vontade pode ser entendida somente estudandoa
desde o começo da Bíblia. Mas por outro lado, um estudo de qualquer
verdade Bíblica deve começar dessa maneira. Da mesma forma que paradas
incorretas extraídas de um órgão trazem desarmonia, assim também uns
poucos versículos isolados das Escrituras retirados de seu contexto, parecem
ensinar coisas que não se harmonizam com todo o ensino da Palavra de Deus.
A liberdade absoluta da vontade pode pertencer somente a Deus. Nenhuma lei
restringe a vontade de Deus, porque Ele é Sua própria lei. Visto que Deus é
soberano, nenhum poder pode sobrepujar Sua vontade. Ele é onipotente. Ele “
…faz todas as coisas segundo o conselho da sua própria vontade ” (Efésios 1:11).
A vontade de Deus é irresistível, fixa, e eterna: “ …Pois, quem resiste à sua
vontade? ” (Romanos 9:19). Ela é eterna porque Deus não muda: “ Eu, o Senhor,
não mudo… ” (Malaquias 3:6). O Senhor Jesus Cristo, a segunda Pessoa da
Divindade, é o mesmo ontem, hoje, e para sempre (Hebreus 13:8). Com Deus “
…não há mudança nem sombra de variação ” (Tiago 1:17). A vontade de Deus
não pode ser mudada para melhor porque Deus não pode ser melhor. Ela não
pode ser mudada para pior porque Deus não pode ser menos do que Ele é.
A vontade de Deus não é sujeita a ninguém, mas a vontade de todo homem é
sujeita a Deus. Deus não determina salvar homens sobre a base da vontade
deles para serem salvos. Tivesse Ele assim resolvido, a vontade do homem
determinaria a vontade de Deus. Mas isto é impossível (e herético) – a liberdade
de Deus indica que Ele não está sob nenhuma compulsão fora de Si mesmo. Ele
age de acordo com a lei de Seu ser. Deus é automovido, e incapaz de pecar.
Quanto mais intenso o poder da autodeterminação, mais intensa será a
liberdade. Conseqüentemente, a liberdade da vontade é atribuível somente a
Deus. Cada criatura é responsável para com Ele. Uma vontade
autodeterminada à absoluta santidade – a vontade de Deus – é marcada pela
mais alta liberdade. A liberdade em Deus é uma autodeterminação imutável; de
modo oposto, a liberdade em um ser finito – Adão antes da queda – é uma
autodeterminação mutável. A verdade que a liberdade em Deus é uma
autodeterminação imutável é a chave para o resto da discussão da liberdade da
vontade.
A vontade de Deus é a lei do universo, não a vontade do homem. Se não
houvesse um ser tal como o supremo e imponente Jeová, o universo
rapidamente se tornaria caótico. Se não houvesse nenhum amor eletivo livre,
todo ministro fecharia seus lábios, e cada pecador sentar-se-ia em mudo
desespero. As Escrituras não registram um só caso de uma limitação na vontade
de Deus. Sua vontade de propósito é suprema, e é efetuada sem derrota
(Romanos 9:19; Tiago 1:17). Mas nós necessitamos distinguir entre vontade de
propósito de Deus e Sua vontade de ordem. Os homens são responsáveis por
cumprir a última, mas a vontade de propósito de Deus não é totalmente
revelada ao homem: “ As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus,
mas as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre… ”
(Deuteronômio 29:29).
Mas, e vontade de autodeterminação de Adão? Adão foi criado em um estado
de retidão. Retidão é um estado mais alto do que a inocência: “ … Deus fez o
homem reto, mas os homens buscaram muitos artifícios” (Eclesiastes 7:29).
Alguns se referem à retidão de Adão como “justiça original”; outros a chamam
“justiça criada”; e alguns a rotulam de “santidade”. A retidão de Adão era
justiça e santidade em um sentido, mas não era absoluta. A santidade, justiça ou
retidão de Adão era mutável, porque Deus não pode criar Deus. O que quer
que Deus crie deve ser menor do que Ele mesmo.
Alguns crêem que Adão foi criado em um estado de equilíbrio, ou indiferença.
Ele era inclinado tanto para o bem como para o mal. Portanto, ele poderia se
voltar tanto para o Criador como para a criatura. Visto que ele se voltou para a
criatura, ele fez a escolha errada. Esta visão errônea foi refutada por grandes
estudiosos do passado. As Escrituras desaprovam a asserção de que Adão foi
criado num estado de indiferença.
Um estado real de indiferença nunca existiu ou existirá; uma vontade não
comprometida nunca ocorrerá dentro de uma consciência humana. Em todo
caso, é desnecessário assumir absoluta indiferença para com a santidade e o
pecado, para se explicar a queda de Adão.
A inocência não descreve suficientemente a condição de retidão de Adão. A
retidão original consistia de qualidade positivas. As qualidades intelectuais e
morais positivas de Adão antes da queda foram manifestas em sua habilidade
para nomear os animais (Gênesis 2:20) e em sua comunhão com o Criador
(Gênesis 2:15-25). Algum conhecimento das características dos animais era
necessário, para nomeá-los. Além do mais, uma retidão positiva era necessária
para gozar de uma comunhão positiva com Deus.
O fato de Deus ter criado Adão reto, significa que Adão tinha conhecimento de
Deus. Isto é explanado dessa forma: As três faculdades ou poderes da alma
humana são (nesta ordem) entendimento, afeição e vontade. A ordem não pode
ser revertida. O pecado de Eva confirma a ordem dos poderes da alma. Ela
ganhou conhecimento da fruta proibida por vê-la. Sua afeição se dirigiu para a
fruta da qual ela ganhou conhecimento. Ela então exercitou sua vontade
tomando a fruta. Portanto, visto que Adão foi criado com um entendimento de
Deus, uma vontade descompromissada era impossível. Consciência sempre
denota uma vontade inclinada, não uma vontade indiferente. Este é o porque
da retidão de Adão ser mais do que uma mera inocência.
A retidão inclui características severas. Adão foi criado reto, um adulto, um
espírito, e com uma vontade. Ele não veio para o mundo como todos os outros
vêm. O primeiro homem foi criado maduro, sem a necessidade de crescimento e
desenvolvimento físico e mental. A idéia de que Adão avançava em estágios de
crescimento e aprendizagem contradiz o pensamento da maturidade criada. A
maturidade de Adão prova que ele tinha uma vontade inclinada. Ele não estava
num estado de equilíbrio, mas sua vontade era inclinada para Deus, seu
Criador.
Na maturidade criada, as faculdades intelectuais de Adão continham idéias e
padrões inatos. Portanto, sua maturidade o capacitava não somente para
nomear os animais, mas para comunicar-se com Deus. Adão foi criado um
espírito (Gênesis 2:7). A criação de uma mente finita, ou espírito, implica a
criação de retidão. O espírito deve ser distinto da matéria. Os móveis são
matéria e devem ser movidos por força. Adão era autodeterminado de dentro.
Sua habilidade para se mover de dentro significa sua liberdade. Ele era
automotivado e não movido por força externa. Automoção é autodeterminação,
e autodeterminação é o ato da vontade.
A vontade de Adão era uma vontade livre porque ela era autodeterminada.
Aquilo que não é forçado exteriormente é livre – mas não absolutamente. Adão
era responsável para com Deus. Ele era livre no sentido de que ele era
inconsciente de qualquer necessidade imposta sobre si. A liberdade de Deus é
imutável, mas a liberdade de Adão era uma autodeterminação mutável.
Pelo ato criativo, a vontade de Adão era inclinada para com Deus – e isto antes
de fazer qualquer escolha. Ele foi criado um espírito, e era autodeterminado no
instante em que foi criado. Sua autodeterminação foi criada com sua vontade.
Adão não poderia ter sido criado sem inclinações. A santa criação de Adão na
justiça (ou retidão) original era tanto criada como autodeterminada. Vista com
referência a Deus, ela era criada. Vista com referência a Adão, ela era
autodeterminada, autoreguladora, e não forçada exteriormente.
Adão veio ao mundo inclinado para Deus. Esta santa inclinação era ao mesmo
tempo produto do Criador e atividade da criatura. Adão não se encontrou em
uma posição de escolher o Criador ou a criatura como último extremo. Ele era
inclinado para o Criador. Sua própria retidão foi dada por Deus, e não
procedeu de sua própria habilidade. De fato, a autodeterminação mutável de

Adão conduziu a sua queda, e depois da queda sua vontade foi escravizada ao
pecado.
Depois da queda, Adão passou de uma inclinação para Deus para uma
inclinação para o pecado. A mudança radical de sua vontade não pode ser
considerada por uma escolha antecedente de um estado indiferente da vontade.
A mudança radical não poderia ter ocorrido se Adão tivesse sido criado em um
estado de equilíbrio. Ele caiu de um estado mutável de retidão. Cair de um
estado de indiferença não teria sido tão trágico como a queda foi.
Desde a queda de Adão, a vontade de cada pessoa é inclinada para o pecado
por natureza. Isto permanece até que o Espírito de Deus a regenera. Então, sua
vontade é inclinada para Deus pela graça. A obra da regeneração em um
indivíduo produz uma mudança tão radical quanto a queda produziu em
Adão.Um homem regenerado é uma nova criatura em Jesus Cristo: “ Porque
somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras… ” (Efésios 2:10). O
novo homem “ …é renovado no conhecimento segundo a imagem daquele que
o criou ” (Colossenses 3:10). “ E ele vos vivificou, estando vós mortos… ”
(Efésios 2:1). “ …Deus opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a
sua boa vontade ” (Filipenses 2:13). Deus dá um coração novo e um espírito
novo (Ezequiel 36:25-27).
A retidão original de Adão era autodeterminada, mas não auto-originada. Sua
queda, todavia, foi tanto autodeterminada como auto-originada. A doutrina da
concorrência – cooperação – não pode ser associada com o pecado de Adão ou
com sua queda. Deus não é o autor nem do pecado, nem da queda de Adão.
A primeira existência de uma virtude não pode ter vindo do homem, porque
Deus é a causa originária de todas as coisas. Todavia, Deus usa causas
secundárias. Adão, a causa secundária, foi criado em um estado de
autodeterminação mutável, que permitia a possibilidade de sua queda. E ele
caiu quando mudou de uma inclinação para Deus para uma egoísta, uma
inclinação egocêntrica. A inclinação pecaminosa é produto e atividade da
criatura.
O Adão mutável, diferente de seu Criador imutável, podia e perdeu sua
retidão. Adão era capaz de perseverar em sua santidade autodeterminada, mas
ele era também capaz de começar uma autodeterminação pecaminosa. Sua
autodeterminação era para um fim extremo e não para uma escolha de meios
para alcançar um fim.
A inclinação difere da volição assim como o fim difere dos meios. Adão caiu em
seu coração antes de comer a fruta proibida. Eva, o vaso frágil, foi enganada,
mas Adão não. Ele era autodeterminado; isto é, ele desejou comer para poder
estar com esposa. A inclinação precedeu a escolha. Eva também pecou em seu
coração antes dela pecar externamente.
Não é a realização de um pecado que faz de alguém um pecador. Ele já é um
pecador antes do ato ser cometido. O Senhor Jesus Cristo identificou o pecado
como aquilo que procede do coração: “ …que todo aquele que olhar para uma
mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela ” (Mateus
5:28). O desejo que precede a volição é pecado.
Comer o fruto proibido não originou a inclinação de Adão, mas a manifestou.
Sua vontade se inclinou para um fim, e ele escolheu os meios para efetuar o
resultado final. A vontade escolhe porque ela já está inclinada.
Esta é a razão porque não há compatibilidade entre o evangelho social e o
evangelho presente na Palavra de Deus. Aqueles que proclamam um evangelho
social contendem que os homens não são responsáveis por seus atos
pecaminosos. Eles atribuem o pecado às condições ambientais ou sociais, que
aliviam os pecadores de suas responsabilidades em cometerem pecados. Mas
isto são tolices. O pecado não pode ser atribuído à outra pessoa ou coisa. Adão
culpou Eva por seu pecado, e com sutileza colocou a culpa sobre o próprio
Deus, que lhe tinha dado Eva. Mas a racionalização de Adão não alterou os
fatos. Ele tinha pecado responsavelmente. Ele tinha ido de uma inclinação para
Deus para uma inclinação para satisfazer seu próprio desejo mal.
A autodeterminação pecaminosa de Adão originou-se dentro de si mesmo.
Deus não cooperou na autodeterminação pecaminosa de Adão. Ele criou Adão
uma pessoa livre. Os arminianos asseveram que um homem não pode agir
livremente a menos que ele tenha a habilidade de cancelar seu ato. Todavia, isto
não é válido. Se um homem pular de um edifício para cometer suicídio, mesmo
que ele possa mudar sua mente durante a queda, ele não poderá retornar ao
topo do edifício. Sua autodeterminação é um ato livre, mas ele não pode
reverter o ato. Do mesmo modo, uma vez que Adão pecou, ele não podia mais
retornar ao seu estado original. Ele caiu – corpo, alma e espírito.
A queda do homem tem sido comparada ao desmoronamento de um edifício
dilapidado de três pisos. O espírito do homem pode ser comparado com o piso
de cima; sua alma, com o segundo piso; e seu corpo, com o sótão. O primeiro a
ser afetado pela queda foi sua mente, ou espírito. Suas emoções foram
influenciadas, e tanto o seu intelecto como sua emoções influenciaram seu
corpo. O piso de cima caiu no segundo, e ambas caíram no sótão. O homem foi
totalmente afetado na queda. Esta é a razão das pessoas morrerem fisicamente
(Romanos 5:12). Uma vez que Adão foi autodeterminado para se voltar de Deus
para satisfazer seus próprios desejos, ele não pôde mais retornar ao seu estado
original de justiça.
Uma volição pode mudar uma volição, mas nunca mudar uma inclinação. Uma
escolha pode mudar outra, mas ela não pode mudar o desejo original. Uma
pessoa pode escolher cometer um assassinato, e antes de apertar o gatilho do
revólver, mudar sua mente. Ele fez uma escolha. Sua segunda escolha foi
contrária à primeira, mas ela não apagou a má inclinação de assassinato que
estava em seu coração. A inclinação pode ser removida somente pela graça de
Deus. Somente o poder de Deus pode sujeitar e fazer o que o homem não pode
fazer por si mesmo.
Assim, portanto, o potencial para reverter uma inclinação pecaminosa não é
necessário para fazer uma pessoa responsável pela inclinação. A única coisa
necessária é que ele a origine. Adão originou sua auto-inclinação pecaminosa.
Ele não somente foi o originador, mas estava ativo na originação. Antes da
queda, o poder para autodeterminar o mal era desnecessário para a santidade
autodeterminante de Adão.
É importante entender que o entendimento de Adão era inalterável, mas sua
vontade era mutável. Certos fatos, tais como rudimentos da aritmética, não
podem ser desaprendidos. Contudo, a vontade pode ser radicalmente,
totalmente mudada. A queda da vontade de Adão foi uma revolução, não uma
evolução.
Vamos sumarizar. Em sua queda, Adão não escolheu entre Deus e a criatura. O
pecado de Adão no jardim do Éden não foi cometido num estado de
indiferença, como se Deus estive a sua direita e o desejo mal a sua esquerda. Ele
estava num estado de retidão, inclinado para Deus; por sua autodeterminação,
ele se voltou de Deus para o mal. Não houve uma escolha entre o Criador e a
criatura. Ele foi de uma inclinação para Deus para uma inclinação para o mal, e
esta foi sua queda.
Espontaneidade num animal é mero instinto físico, mas espontaneidade num
homem é baseada na sua capacidade de raciocinar e entender. Ele é um ser
racional e não age por mero instinto. A inclinação precede o ato do homem.
Algumas coisas apelam ao seu entendimento; suas afeições são influenciadas; e
sua vontade age conseqüentemente. Os arminianos, por outro lado, afirmam
que a vontade é tanto o determinante como a determinada. Isto demonstra que
a vontade é tanto a causa como o efeito. Mas nós vimos que a vontade é a
última das três faculdades ordenadas da alma. Ela não causa uma inclinação. Se
a vontade causa entendimento, nós podemos facilmente dizer que o rabo
balança o cachorro. Se uma pessoa tem uma mente espiritual ela ouve coisas
espirituais, suas afeições são motivas para essas coisas; e ela age
conseqüentemente.
Depois da queda, a vontade de Adão foi escravizada ao pecado e ela perdeu sua
liberdade natural. Permita-nos declarar aqui que a liberdade moral não é
essencial à liberdade natural. Um homem pode escolher sua esposa, profissão,
casa, e assim por diante, mas ele não tem o poder para escolher o que é
espiritual. Não é necessário para um homem ter habilidade espiritual para sua
vontade agir naturalmente.
Os atos da vontade do homem são de duas espécies: (1) Ações da alma que são
manifestas nos atos físicos. Alguém decide fazer algo e faz um movimento
naquela direção. Muitos seguem um ato da alma quando eles andam pelo
corredor, ou permanecem diante de uma igreja declarando que eles estão
seguindo “Jesus”. (2) Ações da alma que ocorrem dentro da própria alma. Isto
acontece quando alguém deseja amar a Deus. Isto não pode ser realizado pelo
homem natural, o qual odeia a Deus (Romanos 3:8-18; João 3:19-21). Se o desejo
de uma pessoa de conhecer ao Senhor é genuinamente motivado pelo Espírito
de Deus, sua busca não é em vão (Mateus 7:7). Aquele que sinceramente busca
ao Senhor dá evidência de uma operação da graça de Deus; faremos bem em
relembrar que Deus não começa nada que Ele não possa completar.
Desde a queda, o homem por natureza pode fazer somente o mal. Quando uma
pessoa é nascida de novo, contudo, ela tem um potencial para o bem. Embora
ela seja fortemente inclinada para o bem, ela ainda é tentada e algumas vezes
pratica o mal. No estado de glória, este não será mais o caso; e o homem será
inclinado somente para o bem.

 

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