por
Abraham Kuyper, D.D., LL.D
VOLUME DOIS
A Obra do Espírito Santo no Indivíduo
Capítulo Primeiro – Introdução: Parte II
II. O Operar da Graça, Uma Unidade.
“…porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito
Santo que nos foi dado” – Romanos 5:5
O objetivo final de todos os caminhos de Deus é que Ele possa ligar tudo em
tudo. Ele não pode cessar de operar até que Ele tenha adentrado nas almas dos
indivíduos. Ele tem deseja o amor da criatura. Ele deseja ver as virtudes do Seu
próprio amor glorificadas no amor do homem para com Ele. E o amor deve
nascer do ser pessoal do homem, o qual tem o seu lugar no coração.
A obra da graça exibida no conselho eterno nunca pode ser suficientemente
louvada. Desde o Paraíso até Patmos, revelada aos profetas e aos apóstolos, ela
é transcendentemente rica e gloriosa. Preparada em Emanuel, que ascendeu às
alturas, que recebeu dons pelos homens, sim, também para os rebeldes, de
forma que o Senhor Deus possa habitar entre eles, ela excede o louvor de
homens e de anjos. E todavia, a sua mais elevada glória e majestade aparecem
somente quando, submetendo os rebeldes, operando na alma, ela faz com que a
sua luz brilhe tanto que os homens, vendo-a, glorifiquem o Pai, que está no céu.
Por conseguinte o derramar do Espírito Santo é o evento coroador de todos os
grandes eventos de salvação, porque ele revela subjetivamente, i.e. nos
indivíduos, a graça até então revelada objetivamente.
Certamente que nos dias do Pacto Antigo a graça salvadora operava nos
indivíduos, mas ela sempre teve um caráter preliminar e especial. Os crentes do
Pacto Antigo não receberam a promessa, “que eles, sem nós, não fossem
aperfeiçoados”[Hebreus 11:40]. E a dispensação da salvação pessoal, na sua
característica normal, começou somente quando a obra da reconciliação estando
terminada, Emanuel havendo ascendido, o outro Confortador veio
interiormente enriquecer os membros do Corpo de Cristo.
Assim é que o propósito do Deus Triúno diligentemente aponta para esta
consumação gloriosa. A compaixão divina não pode parar de operar enquanto a
obra da salvação da alma individual não tenha começado. Em toda a obra
preparatória Deus persistentemente aponta para os Seus eleitos; não somente
após a queda, mas mesmo antes da criação. A Sua sabedoria regozijou-se com o
Seu mundo terreno, e “Suas delícias eram com os filhos dos homens”. Desde a
eternidade Ele pré-conhece todos nos quais a Sua luz gloriosa uma vez brilhará.
Eles não Lhe são estranhos, descobertos somente após o lapso dos tempos, para
serem, após exame, ou deixados de lado como imprestáveis, ou para que neles
se lhes opere, como peças apropriadas e úteis, de acordo com os seus
respectivos méritos; não, o nosso fiel Deus da Aliança nunca se posiciona como
um estranho diante das Suas criaturas. Ele criou-os a todos e ordenou como
todos eles seriam criados; eles não foram primeiro criados e depois ordenados;
mas sim ordenados e depois criados. Ainda assim a criatura não é
independente do Senhor, mas antes de haver uma palavra na sua língua, Ele já
a conhece toda; não por informação do que há existisse, mas pelo conhecimento
divino do que está ainda por existir. Mesmo as relações de causa e efeito
relacionando as várias partes da vida da criatura apresentam-se nuas perante
Ele; nada Lhe é oculto; e muito mais intimamente do que o homem conhece-se a
si mesmo, Deus conhece o homem.
As águas da salvação descendo do topo da montanha da santidade de Deus não
correm para lugares desconhecidos, mas o seu canal já está preparado, e elas,
rolando montanha abaixo, encontram os acres de terra os quais elas devem
regar.
Portanto, embora a clareza requeira divisões e subdivisões na obra da graça,
todavia elas não existem realmente; a obra da graça é uma unidade, trata-se de
um ato eterno, ininterrupto, procedendo do útero da eternidade,
incessantemente movendo-se em direção à consumação da glória dos filhos de
Deus, a qual será revelada no grande e notável Dia do Senhor. Por exemplo,
embora no momento da regeneração Deus chame à existência as coisas que não
o eram, com tudo o que elas contém como que num germe, ainda assim isso não
deveria ser representado como se Ele houvesse deixado aquela alma de lado
por vinte ou trinta anos. Pois mesmo este aparente abandono é uma obra
divina. Constrangido pelo Seu amor, Ele muito mais teria Se voltado para a Sua
criatura escolhida mas perdida criatura imediatamente, para buscá-la e salvá-la.
Mas Ele Se conteve, se podemos assim nos expressar, pois este ignorar, este
abandono, este ocultar do Seu semblante opera junto como um meio de graça,
na hora do amor, para fazer a graça eficiente naquela alma.
Assim é que a salvação de uma alma no seu ser pessoal é um ato eterno,
contínuo e ininterrupto, cujo ponto de partida encontra-se num decreto cujo
objetivo é a glorificação perante o trono. Este ato não contém nada de formal ou
de mecânico. Não existe, primeiro, um período de dezoito séculos, durante o
qual Deus está ocupado com a preparação da graça objetiva, sem uma única
obra graciosa em almas individuais. Nem tampouco há a salvação preparada
somente para possíveis almas cuja salvação ainda era incerta. Não, o amor de
Deus nunca opera em direção ao desconhecido. Ele é perfeito, e a Sua maneira é
perfeita; por isso o Seu amor sempre apresenta a santa e elevada distinção de
proceder de coração para coração, de pessoa a pessoa, conhecendo e
perscrutando alguém com o perfeito conhecimento. Durante todo o dia,
enquanto Caim estava sendo julgado; enquanto Noé e seus oito encontravam-se
a salvo na arca; enquanto Abraão foi chamado, e Moisés conversava com Jeová
face a face; enquanto os videntes estavam profetizando, João Batista apareceu
em público, Jesus subiu ao Calvário, e São João estava tendo visões – em todas
aquelas épocas e horas, Deus nos pré conheceu (se nós somos Seus), a pressão
do Seu amor encontrou escape, firmemente em nossa direção, Ele nos chamou
antes que existíssemos, de modo que pudéssemos vir a existir; e quando viemos
a existir, mesmo então Ele nos guiou como o nosso fiel e verdadeiro Pastor.
Certamente que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus,
mesmo as vidas e os caracteres dos seus ancestrais – pois eles são os chamados
de acordo com o Seu propósito.
Ao invés de frio e formal, na verdade é um ato de amor, energizando,
derramando-se, irradiando-se. Desde a sua nascente, nas mais altas montanhas,
atravessando muitos lugares antes que possa alcançá-lo, o amor divino flui, sem
descanso, até que ele inunde a sua alma. Por isso que o apóstolos vangloria-se
de que finalmente o amor tinha atingido o seu objetivo abençoado na sua
pessoa e na amada igreja em Roma: “Agora temos paz com Deus, porque o
amor de Deus (vindo em nossa direção desde a eternidade) afinal nos alcançou,
e agora está derramado no nosso coração”.
I isto não quer dizer que possuímos agora um amor puro por nós mesmos, mas
que o amor de Deus pelos Seus eleitos, havendo descido desde as alturas e
vencido cada obstáculo, derramou-se na cama profunda dos nossos corações
regenerados. E a isso Ele acrescenta a graça de fazer a alma compreender, beber
dele e experimentar daquele amor. E quando envergonhada e contrita a alma se
perde nas delícias do amor e nas adorações da sua compaixão eterna, então a
Sua glória brilha com refulgente brilho, e o Seu regozijo com os filhos dos
homens estão completos.
Contudo, enquanto o Deus Triúno antecipa desde antes da fundação do mundo
a congregação e a glorificação dos santos, a Bíblia revela claramente que ser esta
congregação e esta glorificação a obra adorável do Espírito Santo. O amor de
Deus é derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos é dado.
A Bíblia nos dá a esta obra do Espírito Santo uma posição de proeminência; não
excluindo a posição do Pai e a posição do Filho, todavia de tal forma que esta
obra pessoal é sempre perpetrada pelo Espírito Santo. E a Bíblia assim o coloca
de maneira tão forte que o Catecismo fala, não incorretamente, de três coisas na
nossa fé mais santa: de Deus, o Pai, e a nossa Criação; de Deus, o Filho e a nossa
Redenção; e somente então de Deus, o Espírito Santo, e a nossa Santificação. E
isto não é de surpreender. Pois –
Primeiro, como já vimos, na economia do Deus Triúno, é o Espírito Santo quem
vem a ter um contato mais próximo com a criatura, e a preenche. Assim é que é
obra peculiar Sua, entrar no coração do homem, e no seu recesso proclamar a
graça de Deus até que ele creia.
Segundo, Ele é quem traz cada obra do Deus Triúno à consumação. Assim é que
Ele completa a obra da graça objetiva pela salvação das almas, atingindo
destarte o seu propósito final.
Terceiro, Ele acende a centelha da vida. Ele paira sobre as águas do caos, e
sopra no homem o sopro de vida. Em perfeita harmonia com isto, o pecador
morto em faltas e em pecado, não pode viver exceto seja restaurado pelo
Espírito de toda restauração, a quem a Igreja tem sempre invocado, dizendo:
“Veni, Creator Spiritus”.
Quarto, Ele toma as coisas de Cristo e O glorifica. Não é o Filho quem distribui
Seus tesouros, mas sim o Espírito Santo. E uma vez que a completa salvação dos
redimidos consiste no fato de que os seus corações mortos e degenerados são
unidos a Cristo, a Fonte de salvação, devemos então louvar ao Espírito Santo
por faze-lo.
Por conseguinte, no constrangedor desejo do amor divino pela salvação das
criaturas escolhidas mas perdidas, a obra do Espírito Santo ocupa
evidentemente a posição mais ressaltada, mais evidente. O nosso conhecimento
de Deus não é completo, exceto que conhecemo-Lo como a Trindade Santa, Pai,
Filho e Espírito Santo. Mas como “ninguém vem ao Pai senão por Mim”[João
14:6], e “e ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o
Filho o quiser revelar”[Mateus 11:27], então ninguém pode vir até o Filho senão
pelo Espírito Santo, e nenhum homem pode vir a conhecer o Filho se o Espírito
Santo não O revelar a ele.
Mas isto não implica em separação alguma, mesmo em pensamento, entre as
Pessoas da Deidade. Isto destruiria a confissão da Trindade, substituindo-a pela
falsa confissão do tri-teísmo. Não, é eternamente o mesmo Deus subsistindo em
três Pessoas. A verdade da nossa confissão brilha no próprio reconhecimento da
unidade na Trindade. O Pai nunca é sem o Filho, nem o Filho sem o Pai. E o
Espírito Santo nunca pode vir até nós nem operar em nós exceto se o Pai e o
Filho cooperarem com Ele.
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