por
Abraham Kuyper, D.D., LL.D
VOLUME DOIS
A Obra do Espírito Santo no Indivíduo
Capítulo Primeiro – Introdução
I. O Homem a ser Operado.
“…eis que derramarei sobre vós o meu; espírito e vos farei saber as minhas
palavras” – Prov. 1:23
Até agora a discussão esteve confinada à obra do Espírito Santo na Igreja como
um todo. Consideraremos a partir de agora a Sua obra nos indivíduos.
Existe uma distinção entre a Igreja como um todo e os seus membros
individuais. Há um Corpo de Cristo, e há membros os quais constituem uma
parte daquele Corpo. E o caráter da obra do Espírito Santo em um é
necessariamente diferente daquela em outro.
A Igreja, nascida do prazer divino, é completa no conselho eterno, e todo o seu
curso foi preparado por uma escolha soberana.
O mesmo Deus que enumerou os fios de cabelo da nossa cabeça também
enumerou os membros do Corpo de Cristo. Como cada nascimento natural é
préordenado, assim também cada Cristão nascido na Igreja é divinamente
predestinado.
A origem e o despertar da vida eterna são do alto; não da criatura, mas do
Criador, e estão enraizados na Sua escolha soberana e livre. E isto constitui-se
não meramente numa escolha, mas é seguido por um ato divino igualmente
decisivo, que dá força e que perpetra aquela escolha.
Isto é a onipotência espiritual de Deus. Ele não é um homem que tenta, que
experimenta, mas Ele é Deus quem, nunca renunciando a obra das Suas mãos, é
persistente e irresistível no fazer, no perpetrar de toda a Sua vontade. Assim o
Seu conselho torna-se história; e a Igreja, cuja forma é delineada naquele
conselho, deve, no decurso dos tempos, nascer, e aperfeiçoar-se de acordo com
aquele conselho; e desde que aquele conselho é indestrutível, as portas do
inferno não prevalecerão contra a Igreja. Esta é a base da segurança e da
consolação dos santos. Eles não têm outra base de confiança. Do fato de que
Deus é Deus, e que portanto a Sua vontade prevalecerá, é que eles tiram a certa
convicção com a qual profetizam contra tudo aquilo que é visível e fenomenal.
Na obra da graça, não há vestígio de acaso ou de fatalismo; Deus determinou
não somente o desfecho, deixando os meios pelos quais o mesmo deverá ser
alcançado não decidido, mas no Seu conselho Ele preparou cada maneira
através da qual realizar a Sua escolha. E naquele conselho, estes meios, estas
maneiras revelam-se de forma tal que não é possível ao olho humano
acompanhar nem compreender. A onipotência divina se adapta à natureza da
criatura. Ela faz com que os cedros do Líbano cresçam e que engordem os
touros de Bashan; mas ela alimenta e fortalece a cada um de acordo com a sua
natureza. O cedro não come capim, nem tampouco o boi escava o solo por
comida.
A ordenança divina requer que, através das suas raízes a árvore absorva os
nutrientes do solo, e que através da sua boca o boi tome seu alimento e o
converta em sangue. E Ele honra a Sua própria ordenança ao providenciar
nutrientes no solo para um, e relva no campo para o outro.
O mesmo princípio prevalece no Reino da Graça. Ao homem como um objeto
daquele Reino, e do mundo moral que a Ele pertence, Deus tem dado um outro
organismo que não o mesmo do boi, do cedro, do vento ou do riacho. Os
movimentos desses últimos são puramente mecânicos; do alto da montanha o
riacho deve descer. Numa maneira diferente, Ele age no boi e na árvore; e de
maneira ainda diferente no homem. No corpo humano forças químicas operam
mecanicamente, e outras forças como aquelas no boi e no cedro. E além dessas
ainda há no homem forças morais as quais são operadas por Deus, de acordo
com a natureza delas.
Nestas bases os nossos pais rejeitaram como indigna de Deus o ponto de vista
fanático de que na obra da graça o homem seja um pedaço de madeira ou um
tijolo; não porque seja algo seja atribuído ao homem; mas por representar a
Deus como negando a Sua própria obra e ordenança. Criar um boi, ou uma
árvore, ou uma pedra, cada um diferente do outro, dar a cada um deles uma
natureza própria, segue-se que Ele não pode violá-las, mas Se adaptar a elas.
Assim é que todas as Suas operações espirituais estão sujeitas às disposições
divinamente ordenadas no homem como um ser espiritual; e esta característica
faz com que a obra da graça seja excessivamente linda, gloriosa e adorável.
Pois não nos enganemos e não falemos mais de uma gloriosa obra de graça se o
Deus onipotente tratar o homem mecanicamente, como um pedaço de madeira
ou um tijolo. Então, não existe nenhum mistério para anjos decifrarem, mas
uma obra imediata de onipotência, quebrando e criando novamente. Para
admirar a obra da graça, deveríamos tomá-la como ela é revelada, i.e. como
uma obra complicada e indecifrável pela qual, sem nada violar, Deus Se adapta
às delicadas e variadas necessidades do ser espiritual do homem; e revela a Sua
divina onipotência na vitória sobre os obstáculos gigantescos e intermináveis,
colocados no Seu caminho pela natureza humana.
Mesmo o coração de Deus anseia por amor. Todo o Seu conselho pode ser
reduzido a um pensamento, a saber, que no final dos tempos Ele possa ter uma
Igreja a qual compreenda o Seu amor e o retorne. Mas o amor não pode ser
ordenado, nem tampouco pode ser forçado de forma não espiritual. Ele não
pode ser derramado mecanicamente no coração do homem. Para ser cálido,
refrescante, e satisfatório, o amor deve ser aceso, deve ser cultivado, e deve
receber carinho. Assim é que Deus não instila uma grama de amor no coração
do Seu povo, por conseqüência do qual eles O amem, mas Ele exibe amor em
extensão tal que Ele, que desde o princípio estava com Deus, e que desde o
princípio era Deus, com amor incompreensível morra pelos homens, na cruz.
Isto teria sido supérfluo, se o homem fosse um pedaço de madeira ou um tijolo.
Deus, então, teria somente tido que criar amor no coração humano, e os homens
O amariam a partir de uma completa necessidade, tal como um fogão irradia
calor quando o fogo é aceso. Mas o amor tão calidamente demonstrado na
Bíblia não é supérfluo, quando Deus lida espiritualmente com criaturas
espirituais. Então a cruz de Cristo é uma manifestação de amor divino que
muitíssimo excede todas concepções humanas; por conseguinte exercendo tal
poder irresistível sobre todos os eleitos de Deus.
E aquilo que é preeminentemente verdadeiro e aparente em amor é igualmente
verdadeiro quanto a cada parte da obra da graça – em todos os seus estágios.
Nisto Deus nunca nega-Se a Si mesmo, nem a ordenança e o plano após os
quais o homem foi criado. Daí ser a glória da ordenança e do plano que,
enquanto que por um lado Deus concedeu ao homem os mais fortes meios de
resistência, por outro Ele sobrepujou tal resistência de forma real e divina, pela
onipotência da graça redentora.
Quando o apóstolo testifica: “De sorte que somos embaixadores por Cristo,
como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos
reconcilieis com Deus”[II Coríntios 5:20], ele revela profundidade tal do
mistério do amor que finalmente as relações são literalmente invertidas, e o
Santo Deus exorta as Suas criaturas rebeldes, quem, ao contrário, é que
deveriam clamar a Ele por misericórdia.
A tradição nos conta da fascinação de seres misteriosos exercida sobre
viandantes e marinheiros, tão irresistivelmente que estes jogavam-se de bom
grado e todavia contra a sua própria vontade, na destruição. Na revelação do
amor, esta tradição se tornou realidade, numa forma invertida e santa. Eis aqui
também um poder todo poderoso de fascinação, afinal irresistível ao pecador
condenado; que permitindo ser atraído, relutantemente e todavia
desejosamente, a compaixão eterna atrai-o não para a destruição, mas sim para
fora dela.
No entanto, as maravilhosas obras de amor raramente podem ser analisadas. Os
que amam nunca sabem quem atraiu e quem foi atraído, nem como, na peleja
das afeições, o amor perpetrou suas atrações. O ser do amor é misterioso
demais para revelar as suas várias obras, e como elas se sucedem. E isto aplicase,
em medida muito maior, ao amor de Deus. Cada santo sabe por experiência
que no final, o amor de Deus tornou-se irresistível e prevaleceu. Mas como a
vitória foi alcançada, isto é impossível de ser dito. Esta obra divina vem até nós
de tais infinitas alturas e profundidades, ela nos afeta tão misteriosamente, e a
princípio houve tão absoluta falta de luz espiritual que alguém raramente
poderia fazer mais do que gaguejar a respeito dessas coisas. Quem é aquele que
compreende o mistério do nascimento natural? Quem aquele que tinha
consciência quando estava sendo curiosamente formado na porção mais inferior
da terra? E se isso teve lugar sem que tivéssemos consciência, como podemos
entender o nosso nascimento espiritual? Em verdade, subjetivamente, i.e.
dependendo da nossa própria experiência, nós sabemos absolutamente nada
sobre o nascimento espiritual; e tudo o quanto já foi ou pode ser dito sobre ele é
tirado exclusivamente da Bíblia. Aprouve ao Senhor levantar somente uma
ponta do véu que cobre este mistério-não mais do que o Espírito Santo julgou
necessário para o sustento da nossa fé, para a glória de Deus e para o benefício
de outros, pela ocasião do seu nascimento espiritual.
Por isso, nesta série de artigos nós tentaremos somente sistematizar e explicar o
que Deus revelou para o direcionamento espiritual dos Seus filhos.
Nada está mais além das nossas mentes do que exercitarmo-nos em coisas que
nos são muito elevadas, ou penetrar em mistérios ocultos às nossas vistas. Onde
a Bíblia para, nós devemos parar; quanto às dificuldades deixadas sem
explicação, nós não acrescentaremos o que deverá ser somente o resultado da
estupidez humana. Mas onde a Bíblia proclama de forma inequívoca o poder
soberano de Jeová na obra da graça, ali nem a crítica ou a pilhéria de homens
evitará que demandemos submissão absoluta à soberania divina e de dar glória
ao Seu Nome.
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